terça-feira, 17 de março de 2026

Sombras na Floresta das Sombras

 Nas minhas andanças, me deparo com uma singela porta em minha frente. Uma porta sem características. Um portal, é possível. Um leve buraco em meio a uma parede infinitamente enorme e da mais profunda escuridão. Olhando para os lados, um sem-fim de cor preta, ausente de luz. Olhando para frente, aquela passagem de luz ofuscante atravessando sua mão gelada e convidativa.

-Então, desta vez, será preciso sair antes de entrar novamente. Viver antes de reviver. Experimentar antes de processar.

Atravessando a porta, o destino se esparramava como um tapete: uma vastidão que subia, em certa inclinação, em direção a algo. Subindo-a, de maneira cansável mas persistente, se tornava impossível não questionar o objetivo daquela caminhada. Onde levaria? Por onde passaria? Estaria eu meramente sendo expulso do meu próprio ser?

Foi quando, de forma bastante repentina, talvez pela característica introspectiva da visão dos meus devaneios, me encontrei próximo a uma floresta de sombras: árvores efetivamente iguais, relativamente bem espaçadas, formadas completamente por sombras. Seu contorno me era óbvio, porém seu conteúdo se fazia suspeito e suas cores profundamente obtusas ao mesmo tempo aglutinavam com suas próprias sombras e contrastavam com a clareza quase branca do chão que era o alicerce do meu caminhar. Ao chegar em sua fronte, o caminho continuou o mesmo - como que se alguém houvesse predeterminado esta passagem, independente do que houvesse no entorno de mim mesmo. Se de olhos fechados eu estivesse, nada haveria mudado; a não ser o vento do descampado, agora trocado pelo silêncio de uma floresta morta.

Após horas de mesmice, de caminhada, de dúvidas, de lampejos autóctones e de cansaço, cansaço este derivado da intolerante caminhada incerta, fui recebido pelo primeiro semblante de mudança: uma sombra que se moveu de dentro do tronco de uma daquelas árvores malditas. Como se tremesse, uma sombra se despregou do cerne de onde habitava e decolou, com asas horrendas, em direção ao céu, voando primeiramente em círculos misteriosos, fazendo presente a sua existência como se quisesse mostrar que ali estava, ali viera, e como se ousasse me adiantar que, até o fim daquele capítulo, também eu estaria serpenteando pelo espaço. Enquanto observava o alto, sem embora pausar por um segundo a minha marcha, me dei conta de que outras daquelas criaturas, sombrias e de corpos aviformes, com olhos amarelados como lâmpadas de ruas antigas, faziam presença da mesma forma que a primeira, aos poucos me cercando como o faria uma matilha de hienas, prontas para a emboscada.

Formando um enorme círculo, uma ciranda horrível de sombras pontilhadas de dourado veloz, começaram a se abaixar até atingir a minha altura, então voltando-se contra a minha existência - atacando com a voracidade de predadores noturnos famintos por sangue que para eles era novo. Naquele momento praguejei, me cobri com minhas longas vestes e acelerei meu passo, brandindo o que podia contra aquelas pestes: braços, galhos, palavras de ordem, maldições, súplicas, revoltas.

Ao levantar a cabeça, a floresta a minha frente estava em chamas. Labaredas cobriam sua vastidão, ainda assim incapazes de clarear as feições das árvores ou das criaturas, da mesma forma que aquela porta era incapaz de clarear as paredes de vazio ancestral. Um a um, dominei aqueles demônios com meu desespero às vezes caótico, porém sempre ordenado. Contradição bem-vinda. Porém, ao afogar o último deles em determinação, à frente agora se encontrava um humanoide, fruto das criaturas abissais que me tomaram de assalto, como que um portão fechado que interrompia qualquer peregrinação. Porém, o obstáculo maior estava atrás dele: um penhasco cujo tamanho e cuja inclinação me eram invisíveis. Duas pedras para um único cajado.

O medo tomou conta do meu ser. Uma questão se tornou evidente: Me entregar ao retorno ao passado sem destino, às chamas, aos corvos malditos, ou enfrentar o monstro adiante, que ao invés de uma montanha de ouro guardava a chave da incerteza do amanhã?

 Por falta de escolha e, admito, por curiosidade, desta vez mantive os olhos no caminho. Acelerei minhas pernas com todas as forças que ainda podiam restavam e, num último segundo, mirei no centro da besta e a abracei enquanto lançava-nos em direção ao abismo.

Ao desconhecido.

Levitamos no ar. Foi como se, por quase-intermináveis segundos, voássemos em direção ao nada. Porém, olhando a massacrante escarpa que marcava a próxima fase daquele capítulo da minha viagem, apoiei sobre a criatura aterrorizante, que se debatia em vão. Ao cair, sua estrutura tenebrosa amorteceu a queda e, a cada batida contra as duras pedras, foi deixando sua umbra esfarelada pela encosta enquanto se desfazia. Após o fim de sua vida, conforme eu deslizava e capotava pelo terreno íngreme, em instantes percebi estar próximo a uma praia, de onde era possível contemplar um navio atracado. Meu próximo destino, imaginei.