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terça-feira, 19 de maio de 2026

Eu não aceito

 Eu não aceito que quase 10 anos já se passaram. Que o mundo já não é mais o mesmo. Que eu já não sou mais aquela pessoa. Que aquelas pessoas, de forma bastante literal muitas vezes, não estão mais lá. Que aquela vida não mais existe. Que não há retorno. E que eu não pertenço mais àquele lugar, embora talvez também ainda não aceite pertencer a este.

Mas não é porque eu não quero. Não é falta de vontade. É algo muito mais simples. Eu simplesmente não consigo. Talvez porque mudei para algo que sempre abominava, talvez porque meu plano sempre foi retornar, ou seguir em frente para outros lugares, antagonizando o que realmente aconteceu.

Talvez a desesperança de um futuro planejado me faz buscar conforto em um passado sem limites, sem bloqueios, sem muralhas, cheio de oportunidades de oportunidades.

Eu quero aceitar, seguir em frente, esquecer, olhar para o improvável, impensado, novo... Para aquilo que se apresenta diante de mim, mesmo que longínquo, escondido, distante, sob as sombras ou as árvores ou atrás das portas e janelas e paredes. Mas tudo que é futuro me parece tão vazio e tão inexistente. Ideias e vontades que nunca se concretiza(rão)m. Por mais que eu saiba que não é verdadeiro, esse sentimento é real. E me atazana e me espaventa para o colo do passado, da nostalgia, da vontade de pretérito no presente, da vontade de ter ficado, da vontade de sair mas ao mesmo tempo de não saber para onde, pois o que almejo não existe. Pois não almejo só o lugar, só o espaço, mas também o tempo. Almejo a vontade, a energia, a importância, a potência, a maleabilidade, a alegria, a paz de espírito, a camaradagem, o pertencimento.

Eu quero aceitar. Eu sei que devo, eu sei que preciso e eu sei que quero. Mas eu me preparei para isso. Para algo que não existe e para negar algo "que não deveria existir".

Mas eu não aceito.

Foda-se. Sei lá.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Multitude of Foes

 Se eu possuo vontade de fazer algo, porém não o faço - mesmo tendo plenas capacidades de fazê-lo - então pressuponho que existe algo dentro de mim que não deseja fazer aquilo. Sou eu, hoje ontem ou amanhã, ou é alguém, real ou imaginário, nas entranhas de mim mesmo, contracenando com a consciência dominante que aqui majoritariamente vos fala? Aqui os divido em tópicos e interpretações, porém tenha em mente que todos podem, e quase sempre devem, estar interligados.

Se sou eu mesmo, talvez simplesmente não tenho certeza se quero, devo ou consigo. E aqui falamos do eu presente no presente, atual, desmascarado e em dúvida. 

Porém, os problemas surgem em ordens maiores principalmente quando falamos dos outros eus: passado e futuro. Por mais que só exista o presente, neste também manifesto versões e visões de mim mesmo em outros tempos, com o passado sabotando o hoje com medos, traumas, dúvidas, consequências. Errar? Sofrer? Arrepender? Perder tempo? Não fizemos isto antes? Como o ser que você foi e foi construindo ao longo dos anos se encaixaria, ou pior, veria a sua vontade de hoje? De agora. Do presente. O que você faz representa quem você é? Não já fizemos diferente antes? Não vivemos fazendo diferente e hoje aqui estamos? Por que mudar? Por que inovar? Por que inventar?

O eu presente no futuro, por sua vez, concatena com o pretérito ao temer o desconhecido. As vontades atuais não impedem um futuro que acompanha o presente? Que acompanha o passado? É como se me encontrasse entre cordas, esticadas pelos braços do futuro e do passado, do ontem e do amanhã, que me prendem no mesmo caminho e proíbem que serpenteie pelo espaço-tempo.

Por fim, existem os outros. Os demais. Reais (conhecidos, nomeados), ou não (arquétipos pessoais, representações imaginárias ou estereótipos, ainda assim reais no mundo interior), possuem uma força que justifica seu axioma acachapante de poder através da externalidade - fortalecida pela sensação de viver como um impostor dentre verdadeiros que o analisam ao leve pensamento de fugir das cordas de quem se sempre foi. Implantados na mente por experiências passsadas - na sua maioria sociais - perpetuam-se nos escombros da memória, reanimados pelo eu presente de formas abomináveis. 

Por mais que sua existência possua raízes muitas vezes defensivas, ou de fragrâncias confortáveis, devemos desafiar tal presença na primeira reflexão causada pela hesitação. Certo, errado, compensatório, necessário, bom, ruim, são todos formas de ver e perceber cujo martelo final e atuante DEVE descansar e agir somente nas mãos da consciência dominante. Não se esqueça.

Feliz natal.

segunda-feira, 23 de junho de 2025

Infinita Potencialidade

 Após dias, semanas (meses?) de caminhada incessante sustentada pelo meu próprio eu exterior, avistei uma fonte de luz. Uma luz pálida, efervescente, branca como uma névoa de manhã gelada de inverno que insiste em existir enquanto o calor domina o seu entorno. Me aproximando, percebi que se tratava de uma espécie de lago ou represa - que eu teria que atravessar.

Para a minha felicidade, às margens se encontrava um barco e ao barco se encontrava um aparente barqueiro. Seria ele o Caronte da minha viagem? O destino decidiria. A figura vestia trajes negros que cobriam todo seu corpo, exceto pelas mãos esqueléticas, e um capuz que fazia parte de todo o restante e ocultava a maior parte de sua face. Por mais que não possuísse pele no rosto, parecia ser bastante expressivo e, ao me aproximar, ele estendeu uma mão aberta com a palma para cima enquanto a outra se apoiava em o que parecia ser um longo remo de madeira.

"Duas moedas, por favor."

"Não tenho."

"Malditos despreparados. Não pensam em mais nada. Entra aí."

E, apoiando na lateral da embarcação, um barco longo de madeira preta, aparentemente enegrecida pelo tempo, saltei para dentro mas preferi me manter de pé para poder enxergar melhor enquanto questionava meu célebre anfitrião ao passo que ele remava tranquilamente em direção ao que parecia ser o centro daquele corpo d'água.

"Que lugar é este?"

"É o Lago da Infinita Potencialidade."

"E ele é infinito mesmo?"

"Não, mas para quem está no meio dele parece. De lá não dá para ver as bordas."

"E é pra lá que estamos indo?"

"Não sei. Você me diz. O que está fazendo aqui que não se preparou o suficiente nem mesmo para encontrar o barqueiro dos mortos?"

"Eu não sabia que minha jornada pelo âmago da existência me levaria à Morte de forma tão literal. Tenho matado, esmagado, aniquilado, ou meramente libertado, minhas pragas e minhas bestas mais antigas."

"Parece mais uma jornada através da Morte de si mesmo."

"Sim, e sou eu o único capaz de fazê-lo. Embora precise da ajuda de outros."

"Que, queira ou não, também são meras pragas e bestas de si mesmo."

"Eu não os chamaria assim."

Depois disso, e de um aparente suspiro de contentamento do barqueiro, continuamos navegando por algum tempo até avistar ao longe uma enorme e fina estrutura. Parecida com um poste acinzentado, se erguia até onde era possível enxergar, brotando de uma aparente ilha, muito diminuta, no que cogitei ser o centro daquele lago. Conforme tal pilar se aproximado, coloquei a mão direita sobre a sobrancelha como se ajudasse a entender melhor o que estava acontecendo. Aos poucos pude ver que havia uma figura inchada, desesperada, se agarrando ao pilar enquanto escorregava no que parecia ser uma espécie de areia movediça que tentava levá-la para dentro da água. E, observando mais de perto, ficou claro que quanto mais se esfregava no poste mais areia era desprendida e jogada aos seus pés, mantendo aquele ciclo sisífico que aparentava durar muito tempo.

Quanta energia gasta para manter aquele cenário. Quanto esforço para não chegar a lugar algum.

"Sabe, esse lago não foi sempre tão grande. Ele começou pequeno, do tamanho de uma poça." - Disse o capitão, de maneira certeira como aqueles que iniciam a contagem de uma História de eras passadas. "Porém, quanto mais ele evitou atravessá-lo, quanto mais ele se agarrou a essa coluna, mais ele aumentou - e junto aumentou o seu corpo, estufado pela própria água e pela própria areia que caem do pilar. E, quanto mais eles aumentaram, maior se tornou o risco de atravessá-lo."

Eu sabia o motivo daquilo. A promessa de Infinita Potencialidade, o Pilar da execução tardia, o porto seguro da fantasia da escolha. Quanto mais se agarra a esse poder, à sensação da possibilidade de escolha, à magnitude de poder ser aquilo que quiser, mais o tempo passa. E quanto mais eles passa, mais pesados ficam os grilhões e maior fica o medo de, ao decidir uma direção, sentir que é tarde demais para voltar. Ou que a costa fica tão longe que nunca chegará do outro lado. Ou que, depois que chegar, todas as outras possibilidades terão ficado para trás.

Como se não houvesse um mundo inteiro além da costa, por mais que obscurecido ao contrário das águas ofuscantes daquele Lago maldito. E como se, ao se agarrar às possibilidades, não estivesse evitando a conclusão de todas elas. Ao invés de se tornar forte, seja onde for, e realizar seu destino, seja aquele que escolher, morre a cada dia na Ilha do Desespero e não se torna nada.

"O que acredita que é a sua força, que o motiva a se agarrar, na verdade só o torna o mais fraco de todos. Olhando do lado de fora, a grandeza desse lago é um testemunho de sua fragilidade."

"Está na hora." - Retrucou o guia.

E, chegando o mais perto de poderíamos, coloquei um pé naquela areia movediça enquanto me mantinha firme com o outro no barco e, estendendo a Mão Esquerda, aquela que representa a escuridão do desconhecido, plantei a sua palma nas costas daquela criatura que se movia como uma minhoca fora da terra e uma sombra se espalhou sobre ela. Agora que seus motivos eram conhecidos, sua existência não fazia mais sentido. Sua jaula foi quebrada. Seu espírito de luta, ignóbil, foi massacrado. Seu dispendioso sofrimento acelerado foi despedaçado. Sua existência derreteu e se tornou parte do lago, ironicamente sendo desengolido pelas águas e se tornando fumaça - livre de qualquer conexão com aquela infinidade de possibilidades.

segunda-feira, 14 de abril de 2025

As 7 Chaves das 7 Correntes

 Em meus devaneios encontrei, num dos centros do infinito, no pilar brilhante de obsidiana retorcida e pontiaguda que se estende do poço obscuro das águas lamacentas da origem aos tetos - invisíveis de tão altos - do ego, a mácula assassina do flagelo; o Tormento imposto de forma sobreposta através dos grossos chicotes estirados, das densas vinhas entrelaçadas, dos pontiagudos espinhos emaranhados, das forças das brutas e pesadas correntes, das cordas retesadas e das mordaças atadas como que por manivelas intransigentes e inflexíveis, tormento que pesa enquanto corrói, enfraquece, cega e impede qualquer tipo de movimento ou sequer esperança de mudança. O caminho para o alto é reto, mas árvore alguma deve crescer como um poste.

Olhando ao redor, tais ferramentas de morte brotam da escuridão que, por mais que infinita, não permite o seu desbravamento através do mero olhar. É preciso conhecê-la para subjugá-la.

Por toda a vida, muitas vezes, são os objetivos que nos espantam. Não os objetivos em si, mas o potencial dos objetivos. De onde vem e para onde vão? É a ida sem volta? Ou é a parada sem ida? Escolha sufocante ou procrastino alucinante? Não importa.

A necessidade da busca, a necessidade da necessidade, a obrigação da obrigação, a responsabilidade imposta, a chama da vela mágica apagada, a natureza acorrentada e sequestrada, a definição externa do futuro, são todos planos. Planos de seres menores, porém numerosos e que em meus momentos iniciais, aproveitando-se de seu tamanho brevemente avantajado, ataram-me ao tronco e, como se fosse um elefante que se acostuma com a corda que após adulto não é capaz de lhe trazer nenhuma opressão a não ser a mental (e assim o prende), fui eu que empoderei ainda após o desenvolvimento do corpo humano - e da sua independência enquanto tal - as amarras criadas para me conter e não me deixar escapar do caminho reto, ordeiro, criado por aqueles tortos e desordeiros.

Desordeiros estes que não o são em poder do Caos ou da expansão ou da capacidade ou da amplitude, mas sim através da mera causalidade de suas tentativas fúteis de seguir um modelo inexistente que não se aplicou nem mesmo ao modelo que tentam desesperadamente seguir.

Afasto-me! Afasto-me desses grilhões não ao mover meus pés, mas ao expulsá-los da minha fronte, da minha existência, do meu centro, do âmago do meu ego.

Afasto-lhes pois eu não escolho um objetivo. Eu escolho um caminho. O Meu Próprio. E dele não fazem parte amarras que não foram colocadas, ou sequer aceitas, por mim mesmo. E, a partir de agora, eu não as aceito. Que na sua extensão o ranger de sua tensão e o chiar de sua resistência ecoem, que a explosão de seu arrebento seja ouvida pelas mãos malditas das almas que nos cercam. Que o vazio se torne repleto de barulho estrondoso e que o tronco da miséria humana cresça e se torne o caule arrebatador da existência poliforme. Com a chave da minha mente eu quebro a Sétima Corrente e me desvencilho de todos os anzóis da corrupção dos antepassados.

O Futuro é Meu. O Futuro é Nosso para criar e abraçar e abocanhar. Se a Magia é um alfabeto, que sejam estas as palavras que me libertam da magia de outrora.

"...he has not dedicated his life to reaching a pre-defined goal, but he has rather chosen a way of life he KNOWS he will enjoy. The goal is absolutely secondary: it is the functioning toward the goal which is important. And it seems almost ridiculous to say that a man MUST function in a pattern of his own choosing; for to let another man define your own goals is to give up one of the most meaningful aspects of life— the definitive act of will which makes a man an individual.

...you MUST FIND A NINTH PATH."

~H.S.Th

domingo, 6 de abril de 2025

Vozes do Tártaro

 Uma nova descensão. Um novo degrau abaixo. Mais um pouco de sombra - independente de qualquer luz superior.

A chama negra cria, mas também apresenta, imagens que passam de danças ululantes por ríspidas estátuas prostradas no que aparenta muros de pedra infinitamente concentrada, como um quadro que se faz diante da visão daquele que observar com o olhar de quem deseja aprender a entender.

A sabedoria do abismo é o micélio da criação, a semente da gênese de tudo que compõe aquilo que todos somos. Tudo que dele sai, tudo que nele cai, nos acompanha infinitamente. E é para ele que devemos nos voltar sempre que o rugido da vontade de contestar o que ali fez sua morada for ensurdecedor.

Pois é assim que se faz. O vale da Morte é feito de pequenas mortes não resolvidas que absorvem a alma de quem matam e se tornam cada vez mais aterradoras e inchadas, ocupando espaços e fazendo barulhos que não lhes pertencem.

Quando é impossível ignorar a sua existência, a inevitabilidade da escolha se faz presente diante dos nossos olhos como se fosse um espectro da mortalidade que nos rege. Com seus braços abertos, com seus olhos vendados e com sua forma decrepitamente plena e absolutamente ilibada em razão da veracidade incontestável da mensagem que representa, essa forma sepulcral porém vertiginosamente, assombrosamente, formidável, denota as únicas opções daqui em diante: navegar, descer as escadas até o âmago do próprio báratro das experiências e ideias, para confrontá-las de uma vez por todas (por enquanto) ou evitá-las mais uma última vez, abrindo fatalmente os portões para a eternidade das estrelas e dos planetas sombrios para além do véu que estende daqui até o além-vida.

Atingindo o precipício do matadouro de almas, face-a-face com o próprio destino revelado, o espelho negro que mostra onde cheguei e nada mais, é imprescindível seguir os conselhos da mão esquelética que escorrega do esteio desse submundo e mostra por onde caminhar para acarar aquilo que me canibaliza - e eu já sei o resultado dessa batalha infernal.

Encontrando através de caminhos ondulados o cerne da insatisfação, do sofrimento, da dúvida, do medo e do questionamento insensato e inútil, como sempre se mantém indubitável a fraqueza pálida da raiz desse sephiroth extorsor de vida. Tão evidente é a sua languidez que chega a ser repugnante o dano causado por tamanha e potente robustez de seus galhos.

Com um único olhar, a lembrança de que sua volúpia virulenta é alimentanda unicamente pela potência da afirmação e do questionamento que de mim mesmo brotam é suficiente para ceifar sua vida numa fração de segundo, aniquilando seu bulbo maldito e apodrecendo seus galhos de arbusto sem tronco como se eras fossem consumidas em um segundo.

Eu sei que a sua morte é incerta e que a ressurreição me aguarda, mas nesta batalha a vitória é (mais uma vez) minha. Aqui eu permaneço, aqui eu cultivo minha própria Qliphoth e fortaleço o exército da minha própria alma e da minha própria mente. Nos salões infinitos desse abismo eu faço minha morada, como andarilho das mãos esqueléticas extraio tudo aquilo que me é possível.

No Vale da Morte, Eu sou Seu Rei.

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Relações interpessoais

 É sempre tão difícil. Por mais que eu conheça a teoria, as ideias, as palavras, a ciência, as variáveis e até os personagens, é sempre tão difícil. Às vezes não parece, mas parece que quase sempre é. Pelo menos quando falamos de forma individual e extensa.

O passado é estranho. Refletindo, agora, parece-me que nem sempre foi. Ou nem com todo mundo. Mas há categorias de pessoas com as quais sempre é. Seriam aqueles que mais admiro(ei)? Seriam aquelas mais enigmáticas? Seriam aquelas onde sinto que tenho mais a perder em forma de potencial (essa ideia que ainda se agarra como um parasita)?

Às vezes penso que isto é algo exclusivo, mas talvez não seja. Porém, não é tão comum porque é algo sempre percebido. Vai saber. Hiperanálise sempre nos decepciona e martiriza, nesses momentos.

Vergonha acumulada às vezes se transforma em compaixão pelo diferente, pelo doente, pelo transtornado. Mas não será isto um mero mecanismo de defesa? Uma forma de procurar um culpado externo? Uma parte da eterna fuga da responsabilidade? Não seria isto mais um sintoma do próprio problema? Se sim, está aí o próprio Ouroboros.

De qualquer forma, é tão difícil de lidar. Sempre foi e às vezes parece que sempre será. Medo, falta de identificação. Expectativas boas e ruins. Paralisia.

Ah, se eu soubesse. Mas é aí que mora a graça de vida. Quase nunca se sabe.

E se, sabendo, quase sempre surge um arrependimento questionável, por que não tentar sem saber?

Sei lá. É tão difícil.

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Para aqueles que choraram de decepção

 Não se sinta mal por chorar de tristeza, de decepção, de raiva... de ódio. O que você sente é o reflexo de quando, por um motivo ou por outro, esperamos algo de alguém - algo que consideramos muitas vezes simples - mas recebemos em troca o oposto, ou nada.

Pode parecer que a noite que agora te envolve é sombria e misteriosa, mas lembre-se que é durante as noites mais escuras que as estrelas aparecem para nos guiar. E que, se você continuar olhando para cima e para frente, essa escuridão servirá para te mostrar o brilho daquilo que realmente importa. Aquilo que sempre fará parte de você, que fará de você você, independente das suas expectativas e das outras pessoas.

É o seu caminho. É a sua motivação. É o seu sentido. É a luz que você sempre possuiu e que, por mais que às vezes pareça que os outros não veem, não só há muitos que a enxergam como também não é isso que importa, mas sim que você ande lado-a-lado com ela e a cultive, deixando-a te guiar e guiando-a em direção ao seu destino - ao seu futuro - seja ele qual for e quantas vezes ele mude.

Saiba que há muito o que se orgulhar de você, e que o que os outros fazem diz mais respeito a eles, assim como o que você fará a partir de agora, e como lidará com esse momento, dirá respeito somente a você. Se suas ações trouxerem mais pessoas para perto, ótimo. Se não, o resultado será o mesmo. Pois é por nós mesmos que vivemos e agimos, e não pela aceitação do outro. Fazemos o que achamos correto com o conhecimento que temos naquele momento, pois é isso que somos e que sempre seremos.

Quando a noite acabar, onde você estará?

domingo, 30 de junho de 2024

Agora

 Olhe pra mim agora.

Estou onde você planejava e esparava? É claro que não. Saoraros aqueles que estão. E o que pensar sobre isto? Deveríamos nós seguirmos a vida conforme o plano autodivino de um predecessor e devemos vivê-la e entendê-la e escolhê-la às nossas regras? Entre as duas opções, a segunda me parece muito mais atraente.

De toda forma, mesmo estando no caminho que eu trilhei, ainda assim há muito que poderia ter sido diferente. Porém, o passado não existe a não ser na nossa mente. O que existe são as suas consequências. Então, só posso dizer que ainda há muito espaço para ser planejado, pois a cada curva e a cada saída do caminho o leque se abre ainda mais, e onde estarei no futuro será surpreendente até para mim mesmo.

Viver é aceitar tais regras fundamentais.

sábado, 25 de maio de 2024

Xeper

 "Eu me tornei a mim mesmo"

Somente após a morte (ou à relegação à caixa de ferramentas da consciência) do ego é que é possível se tornar, completamente, aquele que se realmente é.

Todos temos momentos de acesso a esse estado, nos momentos entre os momentos. Entre os pensamentos, entre os sentimentos, na ponte, na transição, nos momentos de nada; entre a inspiração e a expiração, é que mora - escondido por nós mesmos - aquele que realmente somos.

Alguns chamariam de inspiração divina, outros de princípios, outros de conhecer o próprio destino, de uma forma de iluminação, conhecer sua própria Shambhala, se tornar seu próprio Deus, dentre outros infinitos nomes.

É quando sabemos que algo é certo, que será (ou pelo menos deveria ser) feito, que é parte de nós sem que precisemos raciocinar anteriormente, que encontramos momentos de nós mesmos. Eudaimonia.

É saber, a priori, quem realmente se é. É trazer para a superfície o ser, e não o ego. É fugir das amarras dos julgamentos baseados na identidade que se atribui, ou quer atribuir. É entender o que realmente importa para depois aplicar, através das emoções e dos pensamentos, as ferramentas que se possui para concluir o projeto (ou os projetos) que satisfazem as condições da própria existência. É conhecer a si mesmo.

Porém, isto só é possível se dermos tempo para nós mesmos. Se praticarmos nos libertarmos, pelo menos por alguns momentos, do mundo externo e dos pensamentos internos. É saber viver com o nada. É aceitar o nada e perceber o que surge a partir dele. É acessar um mundo onde só existe o ser. Não o "eu", mas sim o "Ser".

É realizar, sintetizar, montar as peças do quebra-cabeça, e entender que o que já foi e o que será não só não nos limitam como também não existem além de formas de transporte e do aprendizado, ou seja, não existem como forma definidora.

Abrace a espontaneidade do viver, aprenda o que é realmente se projetar e expressar no mundo. Não de forma hedonista, mas sim da forma real que já existe mas que muitas vezes não percebemos.

Torne-se a si mesmo. Xeper.







quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Meditações

De que me serve a dor e o sofrimento causados por algo que foi produzido por mim e que estes não podem mudar? Seria vantajoso senti-los para impedir que este algo aconteça novamente no futuro?

Mas não é esta a origem das consequências dos traumas, que nos comandam de forma irracional por reverberarem acontecimentos do passado assim como uma corda não tocada vibra ao sentir a frequência com a qual que foi retesada na vibração de outra corda?

Não sabia eu, naqueles momentos passados, de forma racional, que aquelas atitudes me trariam sofrimento naquele presente e no atual futuro? E mesmo assim agi da forma de agi.

Não seria mais prudente agir de acordo com a minha racionalidade da próxima (ou das próximas) vez ao invés de buscar um mecanismo - ou falta de mecanismo - que me evite sofrer?

Seria esta uma nova tentativa de atribuir responsabilidade a um meio externo, ou falta de responsabilidade a um meio interno?

Por fim, deixar de sofrer pelo que já vem sendo sofrido há muito e pensar em agir de forma a enfrentar as consequências me parece mais produtivo.

As dores do corpo são inevitáveis, porém as da mente merecem certo controle - ou pelo menos tentativa de.

sábado, 7 de outubro de 2023

Frágil Humanidade

 

descansem em paz todos os que já foram e todos os que ficam, pois esta falta de paz é só mais um resultado de nossas fragilidades

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

E lá vamos nós de novo

 Vivo através dos outros enquanto tento multiplicar as forças para fazer tudo aquilo que é necessário mas que me é (e sempre me foi) horrendo de ter que fazer.

O equilíbrio do balanço pendular transforma a existência que poderia ser medíocre em algo satisfatório e traz uma reserva de energia cultivada pelas ações satisfatórias do dia-a-dia, ou até mesmo de dias específicos.

Agora, quando tudo o que resta são as obrigatoriedades inúteis e nefastas, e a esperança de momentos bons é deturpada pela sabedoria de haverão fatores ruins que os corromperão, o que resta é o escapismo e a tentativa de perceber o bom na vida de outros ao invés de tornar tornar a própria existência menos sofrível.

De volta ao buraco? A saída está na escrita? Nas ações? Na solidão? Ou é esta a casa? Forçada ou escolhida? Ou uma soma de ambos?

Consciência e más decisões se unem para me acachapar.

sábado, 9 de abril de 2022

Silêncio e solidão

 Demônios também sofrem da maldição do silêncio. Silêncio, passividade, aceitação, submissão, medo, agonia, angústia, pressão, depressão, raiva e tudo mais de que todos os mortais podem sofrer.

Me vejo sofrendo e busco os velhos buracos por onde alguma luz passava.

Luz cansada, luz antiga e sem sentido. Olhar pra algo que de mim não faz parte nem tem importância é improdutivo. A caminhada será (já está sendo, desde sempre) longa, mas chegarei ao final sendo eu mesmo (por bem ou por mal, se é que existem).

domingo, 6 de junho de 2021

Permanências na narrativa

 Sonhos...

A realidade transcendental onde vivem as vontades, as memórias, alegrias, tristezas, avisos... Onde tudo vive amassado, aglutinado, unificado e em diálogo. Diferente da realidade consciente e lúcida, onde tudo luta pelo seu espaço na fila da manifestação.

E novamente você aparece diante de mim. Mais um sonho onde a visita inesperada surge inesperadamente em meio à trama, agindo com a normalidade de quem sempre ali esteve. São quase 10 e não 5 anos, sua memória não é presente no meu viver mas de alguma forma você ainda faz parte dos meus sonhos e vem trazida pela mesma pessoa que a trouxe da primeira vez no mundo externo.

Não me traz sentimentos ruins, nem muda os meus planos, mas sua permanência sempre será aleatoriamente surpreendente. Talvez esse breve encontro me ajude a conciliar com partes do meu eu que ficaram no passado. Talvez não. Mas acredito que a mente concluiu seu trabalho, pois neste exato momento ela trabalha para destrinchar e deixar esse acontecimento aqui, marcado nos Diários do Demônio [1a vez].

Seja bem vinda mas seja breve. Sua presença lá não mais tem lastro aqui.

G. L.

sexta-feira, 14 de maio de 2021

A proximidade do Frio

O frio é a estação da aproximação. Ao contrário do que muitos dizem, é no frio que desejamos ter alguém por perto. É no frio que queremos alguém para compartilhar o calor e pra darmos gosto aos calafrios e fim ao frio constante. É no frio que o outro se torna uma presença física que literalmente troca sua energia conosco.

É no frio que a aproximação mais vem a mente e mais faz falta.

Mas, felizmente no meu caso, neste frio de agora, essa aproximação é mais vontade do novo que saudade do antigo e assim dói menos e objetiva mais. Não tem nascimento no desprezo ou na revolta mas sim na volúpia e na especulação e imaginação futuras.

O frio é a estação do calor, mesmo que este se dê através do frio compartilhado. O frio é a subtração multiplicada, onde menos com menos é mais.

O pêndulo das emoções se move para frente e para trás e a cadeia de pensamentos abre suas celas para que as reflexões se esquentem no banho de Sol.

Se não compartilho do meu frio caloroso, me esquento com as ideias que sustento na minha Ideia de futuro. Escrever é meu prazer insolícito, insolente e sem estribeiras. É onde eu sou eu e onde deixo parte de mim. Onde me multiplico e me torno mais.

É no frio que esquento minha História.

terça-feira, 9 de março de 2021

Desabafo

 Já se sentiu inútil, imprestável, insuficiente, vazio, ignorado, pequeno e teve medo de se sentir e ser visto assim pro restante da sua vida?

Hoje é só isso... E hoje é figura de linguagem, já que aqui jaz um resumo da minha vida atual. Não consigo parar de pensar nisso e me sentir pior que morto. Talvez falar para as paredes desta catedral ajude. Talvez não. Mas sinto que preciso desabafar. Quero voltar a escrever, mas só penso num tópico, num tema, e não trago nada de novo. Isso tem que passar. Pandemia, decepções, autodestruição, síndrome de impostor, nostalgia, saudades, confusão...

Tudo isso domina a vida neste momento e não dá espaço pro foco em mais nada.

Duvidar de si mesmo é cruel.

É masoquista

Inevitável?

Pare.

Só.



quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Solidão

 A solidão é um conceito engraçado.

Quando totalmente opcional, é capaz de trazer tranquilidade e de fortalecer a mente. É capaz de nos engrandecer e de fazer com que nos vejamos como autossuficientes ao ponto de transbordarmos e sentirmos que somos maiores que o mundo que nos circunda. Apequena os problemas e simplifica as soluções.

Porém, quando forçada, é a manifestação do martelo que bate em nossas cabeças quando tentamos sair da toca obscura para visualizar o mundo e suas vantagens. É a morte das opções e do futuro. É a sensação de não-pertencimento a nada e de desvalorização pura do si. Ela mostra, verdade ou não, o quanto somos inúteis, indesejados e descartáveis. Engrandece as fraquezas. Fortalece a dúvida. Nos afasta mais ainda da saída. É o vazio.

Paranoia paralisante.

Incerteza, insegurança e descostume.

As mesmas situações físicas, porém opostas onde realmente importa.



quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Solilóquio e Abominação do Si

Felina sagacidade. Enterrada em meu ser, a concepção da síntese e a análise debatem constantemente nas janelas enquanto pelos becos e pelas ruas do consciente caminham temas dos quais é feito solilóquio. Transitam tais proposições em eterno despir e escancaro, mostrando todas as suas hipóteses e todos os seus potenciais significados. Não se manifestam, necessariamente, enquanto significado de um fato exterior, mas antes se apresentam de fora para dentro para resultarem em uma miríade de visões de o fora pelo dentro.

Me atormenta a relação entre tal exercício constante e o resultado que propõe no mundo exterior. Gritos são ouvidos, vindos de todas as janelas. Todos tem a resposta, mas muitas vezes somente uma ação é possível. E nesta também encontramos a inação. Agir ou não agir, o tempo passa da mesma forma.

A insegurança, na maioria das vezes, me leva à inação ou à ação sublime e contida. Por mais que eu não queira e por mais que eu queira agarrar com todas as forças de minhas garras aquela atitude que resumiria um terceiro ser da (in)consciência, o sentimento, a insegurança e o medo me seguram para trás e me detém, prisioneiro de minhas atitudes triviais e fracas.

As consequências me aterrorizam, mas as consequências desse padrão de agir me trazem não só terror mas também ódio.

A luta pela melhora é uma luta de subida que não tem descanso. Enquanto descanso, ela me alfineta nos meus sonhos e me mostra outras mil possibilidades mais fáceis de cenários que não ocorrerão. É preciso lutar contra si mesmo com as armas que você mesmo possui. É se odiar mas se amar o suficiente para tentar se transformar. É fincar a faca no medo e agir às como um zumbi que não pensa, para se acostumar com as consequências aceitáveis de suas atitudes.

É saber que o relógio está batendo, que o tempo está acabando, e que só temos uma chance de viver.

Você vai me mostrar a sua luta? Ou vai me mostrar a sua vitória, batalha por batalha?



sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Nostálgica tarde de sexta-feira

 A meia-luz do tempo chuvoso entra pelo vidro da janela do meu quarto enquanto caminho com o notebook em uma mão e uma e a caneca de café na outra. São 12:12. Na trajetória até a cama, atualmente o local de preferência para passar meus dias durante essa pandemia global que ainda nos assola mesmo sendo cada vez mais ignorada e teorizada, contemplo meus dois baixos com alegria nostálgica e expectativa futura. O Sol magro que se manifesta traz uma sensação cinematográfica e lembra tempos mais romantizados em que a música, o clima e a conversa sobre ambos me trazia toda a alegria de que eu precisava.

Não há frio, mas também não há calor.  Com uma leve virada de cabeça consigo visualizar tudo que me traz sentido e que representa quem eu sou. Os baixos, pedal, o amplificador, roupas, capacete, CDs, calçados, ferramentas, livros e até o meu próprio cabelo.

Aos poucos, esse estado de consciência vai me inundando e mostrando que veio para ficar como o novo normal. O primeiro sacudir do mar turbulento assusta e traz o medo, mas mesmo a sua inconstância se torna uma constante.

Tenho me sentido bastante nostálgico de tempos mais simples, mas acredito que isso é um reflexo da simplicidade atual que veio com a liberação de espaços. Não mais a vontade de me moldar para me encaixar, mas sim de ser e de mudar por mim mesmo, porém sem pressa e sem desespero.

No meu mundo, eu sou Deus de tudo. Como mais haveria de ser? Por quê seria eu insuficiente se sou eu que produzo, através dos meus sentidos, toda a existência ao meu entorno? 

O caminho é para frente, mas onde estou não só já é parte do caminho como já foi parte do objetivo. O Eu de 10 anos atrás estaria orgulhoso mas não surpreso com o Eu de agora. E é isso que nos liga.



terça-feira, 6 de outubro de 2020

Sonhos no Tártaro da esperança

Por duas noites seguidas eu tenho sonhado com a tua presença. com o recomeço daquilo que perdemos, com o acerto de contas e com o duplo entendimento da condição alheia. Com a vontade de permanências que nos impulsionam nos nossos caminhos. Na primeira, veio até mim. Na segunda, fui até ti. Nas duas, o conturbado metamorfoseou no tranquilo e o momento já-terminado morreu, esquecido fora do campo do aprendizado, e deu espaço a um novo início, livre das garras e amarras e cobranças do passado.

Por quê? Por mais que esta seja uma realidade que me traria alegria, não busco tais sonhos. Os sonhos sempre foram, para mim, um refúgio da realidade. Maldita realidade, que nos derruba em todas as chances que se apresentam e que nos empurra para baixo sempre que percebe um fraquejo. Agora, me atormentam da mesma forma que o esperar do próximo dia. Me mostram o que poderia ser.

Mas acordo e imediatamente percebo a realidade no meu entorno. O inferno parece cada vez mais vazio. A crise se manifesta em todos os planos; e os anjos descem ao abismo para buscar os demônios enquanto outros escalam as montanhas erebicas na esperança de alcançarem a luz ou na ilusão de alçarem voo mais uma vez com a ajuda de ventos mais fortes.

Talvez as profundezas não estejam tão mais vazias quanto desocupadas. São poucos os que não voltam. Eu mesmo voltei, mesmo que muito antes de abrir meus olhos para aceitar a falta de luz. Porém, errados somos nós que esquecemos de onde viemos e nos acostumamos com a contumaz clareza dos mundos geograficamente superiores, que enquanto nos querem se fazem onipresentes em nossas vidas.

O ódio sempre existiu e sempre existirá, mas hoje ele se direciona não para as unidades ou para os singulares, acostumados com tal forma de viver centrada no si, mas sim para as estruturas e para essa torre de existência que nos limita e nos engana. A morte dos céus não está na morte de seus integrantes, mas na derrubada de seus alicerces.

De toda forma, seria ela um anjo ou demônio adversário? Tanto faz. Os anjos já não são os mesmos e os demônios muito menos. Neste buraco abadônico, o que mais se busca é o passar dos dias e às vezes um lugar sobre as rochas ígneas onde o sono de Hypnos nos ajude a esquecer da morte constante. Subir a escada da existência, por aqui, é um processo individual. O fogo primordial não habita as profundezas anaeróbicas, mas também não pode existir na excessividade estratosférica. É preciso usarmos nossas asas não só para voar, mas primeiro para nos equilibrarmos na caminhada, pois elas ainda não estão prontas para a viagem. A escalada, hoje, se dá de forma menos heroica e menos unida, mas já é possível traçar os próprios trajetos e atravessar aqueles que no caminho do meu objetivo se estabelecem.