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terça-feira, 19 de maio de 2026

Eu não aceito

 Eu não aceito que quase 10 anos já se passaram. Que o mundo já não é mais o mesmo. Que eu já não sou mais aquela pessoa. Que aquelas pessoas, de forma bastante literal muitas vezes, não estão mais lá. Que aquela vida não mais existe. Que não há retorno. E que eu não pertenço mais àquele lugar, embora talvez também ainda não aceite pertencer a este.

Mas não é porque eu não quero. Não é falta de vontade. É algo muito mais simples. Eu simplesmente não consigo. Talvez porque mudei para algo que sempre abominava, talvez porque meu plano sempre foi retornar, ou seguir em frente para outros lugares, antagonizando o que realmente aconteceu.

Talvez a desesperança de um futuro planejado me faz buscar conforto em um passado sem limites, sem bloqueios, sem muralhas, cheio de oportunidades de oportunidades.

Eu quero aceitar, seguir em frente, esquecer, olhar para o improvável, impensado, novo... Para aquilo que se apresenta diante de mim, mesmo que longínquo, escondido, distante, sob as sombras ou as árvores ou atrás das portas e janelas e paredes. Mas tudo que é futuro me parece tão vazio e tão inexistente. Ideias e vontades que nunca se concretiza(rão)m. Por mais que eu saiba que não é verdadeiro, esse sentimento é real. E me atazana e me espaventa para o colo do passado, da nostalgia, da vontade de pretérito no presente, da vontade de ter ficado, da vontade de sair mas ao mesmo tempo de não saber para onde, pois o que almejo não existe. Pois não almejo só o lugar, só o espaço, mas também o tempo. Almejo a vontade, a energia, a importância, a potência, a maleabilidade, a alegria, a paz de espírito, a camaradagem, o pertencimento.

Eu quero aceitar. Eu sei que devo, eu sei que preciso e eu sei que quero. Mas eu me preparei para isso. Para algo que não existe e para negar algo "que não deveria existir".

Mas eu não aceito.

Foda-se. Sei lá.

terça-feira, 17 de março de 2026

Sombras na Floresta das Sombras

 Nas minhas andanças, me deparo com uma singela porta em minha frente. Uma porta sem características. Um portal, é possível. Um leve buraco em meio a uma parede infinitamente enorme e da mais profunda escuridão. Olhando para os lados, um sem-fim de cor preta, ausente de luz. Olhando para frente, aquela passagem de luz ofuscante atravessando sua mão gelada e convidativa.

-Então, desta vez, será preciso sair antes de entrar novamente. Viver antes de reviver. Experimentar antes de processar.

Atravessando a porta, o destino se esparramava como um tapete: uma vastidão que subia, em certa inclinação, em direção a algo. Subindo-a, de maneira cansável mas persistente, se tornava impossível não questionar o objetivo daquela caminhada. Onde levaria? Por onde passaria? Estaria eu meramente sendo expulso do meu próprio ser?

Foi quando, de forma bastante repentina, talvez pela característica introspectiva da visão dos meus devaneios, me encontrei próximo a uma floresta de sombras: árvores efetivamente iguais, relativamente bem espaçadas, formadas completamente por sombras. Seu contorno me era óbvio, porém seu conteúdo se fazia suspeito e suas cores profundamente obtusas ao mesmo tempo aglutinavam com suas próprias sombras e contrastavam com a clareza quase branca do chão que era o alicerce do meu caminhar. Ao chegar em sua fronte, o caminho continuou o mesmo - como que se alguém houvesse predeterminado esta passagem, independente do que houvesse no entorno de mim mesmo. Se de olhos fechados eu estivesse, nada haveria mudado; a não ser o vento do descampado, agora trocado pelo silêncio de uma floresta morta.

Após horas de mesmice, de caminhada, de dúvidas, de lampejos autóctones e de cansaço, cansaço este derivado da intolerante caminhada incerta, fui recebido pelo primeiro semblante de mudança: uma sombra que se moveu de dentro do tronco de uma daquelas árvores malditas. Como se tremesse, uma sombra se despregou do cerne de onde habitava e decolou, com asas horrendas, em direção ao céu, voando primeiramente em círculos misteriosos, fazendo presente a sua existência como se quisesse mostrar que ali estava, ali viera, e como se ousasse me adiantar que, até o fim daquele capítulo, também eu estaria serpenteando pelo espaço. Enquanto observava o alto, sem embora pausar por um segundo a minha marcha, me dei conta de que outras daquelas criaturas, sombrias e de corpos aviformes, com olhos amarelados como lâmpadas de ruas antigas, faziam presença da mesma forma que a primeira, aos poucos me cercando como o faria uma matilha de hienas, prontas para a emboscada.

Formando um enorme círculo, uma ciranda horrível de sombras pontilhadas de dourado veloz, começaram a se abaixar até atingir a minha altura, então voltando-se contra a minha existência - atacando com a voracidade de predadores noturnos famintos por sangue que para eles era novo. Naquele momento praguejei, me cobri com minhas longas vestes e acelerei meu passo, brandindo o que podia contra aquelas pestes: braços, galhos, palavras de ordem, maldições, súplicas, revoltas.

Ao levantar a cabeça, a floresta a minha frente estava em chamas. Labaredas cobriam sua vastidão, ainda assim incapazes de clarear as feições das árvores ou das criaturas, da mesma forma que aquela porta era incapaz de clarear as paredes de vazio ancestral. Um a um, dominei aqueles demônios com meu desespero às vezes caótico, porém sempre ordenado. Contradição bem-vinda. Porém, ao afogar o último deles em determinação, à frente agora se encontrava um humanoide, fruto das criaturas abissais que me tomaram de assalto, como que um portão fechado que interrompia qualquer peregrinação. Porém, o obstáculo maior estava atrás dele: um penhasco cujo tamanho e cuja inclinação me eram invisíveis. Duas pedras para um único cajado.

O medo tomou conta do meu ser. Uma questão se tornou evidente: Me entregar ao retorno ao passado sem destino, às chamas, aos corvos malditos, ou enfrentar o monstro adiante, que ao invés de uma montanha de ouro guardava a chave da incerteza do amanhã?

 Por falta de escolha e, admito, por curiosidade, desta vez mantive os olhos no caminho. Acelerei minhas pernas com todas as forças que ainda podiam restavam e, num último segundo, mirei no centro da besta e a abracei enquanto lançava-nos em direção ao abismo.

Ao desconhecido.

Levitamos no ar. Foi como se, por quase-intermináveis segundos, voássemos em direção ao nada. Porém, olhando a massacrante escarpa que marcava a próxima fase daquele capítulo da minha viagem, apoiei sobre a criatura aterrorizante, que se debatia em vão. Ao cair, sua estrutura tenebrosa amorteceu a queda e, a cada batida contra as duras pedras, foi deixando sua umbra esfarelada pela encosta enquanto se desfazia. Após o fim de sua vida, conforme eu deslizava e capotava pelo terreno íngreme, em instantes percebi estar próximo a uma praia, de onde era possível contemplar um navio atracado. Meu próximo destino, imaginei.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Castelo amaldiçoado

 Se você constrói seu castelo sobre um mar de esterco, ele sempre se afundará e sempre estará manchado de esterco. Você pode construir altas torres, criar bandeiras esvoaçantes, entradas douradas, tronos suntuosos. Tudo tomará um tom marrom, esverdeado, amarelo... todos variantes do mesmo esterco sobre o qual sua fundação repousa. Portas de madeira entalhada, roupas trabalhadas, festas planejadas... tudo será parte do diamante que repousa sobre o mar do lamaçal onde você construiu sua moradia.

Faça o que fizer, melhore o que quiser, vença todas as lutas, progrida e ordene; se você o fizer sobre uma estrutura de contradição, insatisfação, rejeição e sentimento de não-pertencimento, você terá construído a sua maior obra - você mesmo e sua vida - sobre um terreno corrompedor de qualquer vitória ou alegria que pudesse alcançar com suas ações. O miasma do desgosto penetrará suas janelas, o esterco e o lamaçal cobrirão suas pernas e a instabilidade vai ruir suas paredes, desmoronando tudo sobre sua cabeça.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Multitude of Foes

 Se eu possuo vontade de fazer algo, porém não o faço - mesmo tendo plenas capacidades de fazê-lo - então pressuponho que existe algo dentro de mim que não deseja fazer aquilo. Sou eu, hoje ontem ou amanhã, ou é alguém, real ou imaginário, nas entranhas de mim mesmo, contracenando com a consciência dominante que aqui majoritariamente vos fala? Aqui os divido em tópicos e interpretações, porém tenha em mente que todos podem, e quase sempre devem, estar interligados.

Se sou eu mesmo, talvez simplesmente não tenho certeza se quero, devo ou consigo. E aqui falamos do eu presente no presente, atual, desmascarado e em dúvida. 

Porém, os problemas surgem em ordens maiores principalmente quando falamos dos outros eus: passado e futuro. Por mais que só exista o presente, neste também manifesto versões e visões de mim mesmo em outros tempos, com o passado sabotando o hoje com medos, traumas, dúvidas, consequências. Errar? Sofrer? Arrepender? Perder tempo? Não fizemos isto antes? Como o ser que você foi e foi construindo ao longo dos anos se encaixaria, ou pior, veria a sua vontade de hoje? De agora. Do presente. O que você faz representa quem você é? Não já fizemos diferente antes? Não vivemos fazendo diferente e hoje aqui estamos? Por que mudar? Por que inovar? Por que inventar?

O eu presente no futuro, por sua vez, concatena com o pretérito ao temer o desconhecido. As vontades atuais não impedem um futuro que acompanha o presente? Que acompanha o passado? É como se me encontrasse entre cordas, esticadas pelos braços do futuro e do passado, do ontem e do amanhã, que me prendem no mesmo caminho e proíbem que serpenteie pelo espaço-tempo.

Por fim, existem os outros. Os demais. Reais (conhecidos, nomeados), ou não (arquétipos pessoais, representações imaginárias ou estereótipos, ainda assim reais no mundo interior), possuem uma força que justifica seu axioma acachapante de poder através da externalidade - fortalecida pela sensação de viver como um impostor dentre verdadeiros que o analisam ao leve pensamento de fugir das cordas de quem se sempre foi. Implantados na mente por experiências passsadas - na sua maioria sociais - perpetuam-se nos escombros da memória, reanimados pelo eu presente de formas abomináveis. 

Por mais que sua existência possua raízes muitas vezes defensivas, ou de fragrâncias confortáveis, devemos desafiar tal presença na primeira reflexão causada pela hesitação. Certo, errado, compensatório, necessário, bom, ruim, são todos formas de ver e perceber cujo martelo final e atuante DEVE descansar e agir somente nas mãos da consciência dominante. Não se esqueça.

Feliz natal.

segunda-feira, 23 de junho de 2025

Infinita Potencialidade

 Após dias, semanas (meses?) de caminhada incessante sustentada pelo meu próprio eu exterior, avistei uma fonte de luz. Uma luz pálida, efervescente, branca como uma névoa de manhã gelada de inverno que insiste em existir enquanto o calor domina o seu entorno. Me aproximando, percebi que se tratava de uma espécie de lago ou represa - que eu teria que atravessar.

Para a minha felicidade, às margens se encontrava um barco e ao barco se encontrava um aparente barqueiro. Seria ele o Caronte da minha viagem? O destino decidiria. A figura vestia trajes negros que cobriam todo seu corpo, exceto pelas mãos esqueléticas, e um capuz que fazia parte de todo o restante e ocultava a maior parte de sua face. Por mais que não possuísse pele no rosto, parecia ser bastante expressivo e, ao me aproximar, ele estendeu uma mão aberta com a palma para cima enquanto a outra se apoiava em o que parecia ser um longo remo de madeira.

"Duas moedas, por favor."

"Não tenho."

"Malditos despreparados. Não pensam em mais nada. Entra aí."

E, apoiando na lateral da embarcação, um barco longo de madeira preta, aparentemente enegrecida pelo tempo, saltei para dentro mas preferi me manter de pé para poder enxergar melhor enquanto questionava meu célebre anfitrião ao passo que ele remava tranquilamente em direção ao que parecia ser o centro daquele corpo d'água.

"Que lugar é este?"

"É o Lago da Infinita Potencialidade."

"E ele é infinito mesmo?"

"Não, mas para quem está no meio dele parece. De lá não dá para ver as bordas."

"E é pra lá que estamos indo?"

"Não sei. Você me diz. O que está fazendo aqui que não se preparou o suficiente nem mesmo para encontrar o barqueiro dos mortos?"

"Eu não sabia que minha jornada pelo âmago da existência me levaria à Morte de forma tão literal. Tenho matado, esmagado, aniquilado, ou meramente libertado, minhas pragas e minhas bestas mais antigas."

"Parece mais uma jornada através da Morte de si mesmo."

"Sim, e sou eu o único capaz de fazê-lo. Embora precise da ajuda de outros."

"Que, queira ou não, também são meras pragas e bestas de si mesmo."

"Eu não os chamaria assim."

Depois disso, e de um aparente suspiro de contentamento do barqueiro, continuamos navegando por algum tempo até avistar ao longe uma enorme e fina estrutura. Parecida com um poste acinzentado, se erguia até onde era possível enxergar, brotando de uma aparente ilha, muito diminuta, no que cogitei ser o centro daquele lago. Conforme tal pilar se aproximado, coloquei a mão direita sobre a sobrancelha como se ajudasse a entender melhor o que estava acontecendo. Aos poucos pude ver que havia uma figura inchada, desesperada, se agarrando ao pilar enquanto escorregava no que parecia ser uma espécie de areia movediça que tentava levá-la para dentro da água. E, observando mais de perto, ficou claro que quanto mais se esfregava no poste mais areia era desprendida e jogada aos seus pés, mantendo aquele ciclo sisífico que aparentava durar muito tempo.

Quanta energia gasta para manter aquele cenário. Quanto esforço para não chegar a lugar algum.

"Sabe, esse lago não foi sempre tão grande. Ele começou pequeno, do tamanho de uma poça." - Disse o capitão, de maneira certeira como aqueles que iniciam a contagem de uma História de eras passadas. "Porém, quanto mais ele evitou atravessá-lo, quanto mais ele se agarrou a essa coluna, mais ele aumentou - e junto aumentou o seu corpo, estufado pela própria água e pela própria areia que caem do pilar. E, quanto mais eles aumentaram, maior se tornou o risco de atravessá-lo."

Eu sabia o motivo daquilo. A promessa de Infinita Potencialidade, o Pilar da execução tardia, o porto seguro da fantasia da escolha. Quanto mais se agarra a esse poder, à sensação da possibilidade de escolha, à magnitude de poder ser aquilo que quiser, mais o tempo passa. E quanto mais eles passa, mais pesados ficam os grilhões e maior fica o medo de, ao decidir uma direção, sentir que é tarde demais para voltar. Ou que a costa fica tão longe que nunca chegará do outro lado. Ou que, depois que chegar, todas as outras possibilidades terão ficado para trás.

Como se não houvesse um mundo inteiro além da costa, por mais que obscurecido ao contrário das águas ofuscantes daquele Lago maldito. E como se, ao se agarrar às possibilidades, não estivesse evitando a conclusão de todas elas. Ao invés de se tornar forte, seja onde for, e realizar seu destino, seja aquele que escolher, morre a cada dia na Ilha do Desespero e não se torna nada.

"O que acredita que é a sua força, que o motiva a se agarrar, na verdade só o torna o mais fraco de todos. Olhando do lado de fora, a grandeza desse lago é um testemunho de sua fragilidade."

"Está na hora." - Retrucou o guia.

E, chegando o mais perto de poderíamos, coloquei um pé naquela areia movediça enquanto me mantinha firme com o outro no barco e, estendendo a Mão Esquerda, aquela que representa a escuridão do desconhecido, plantei a sua palma nas costas daquela criatura que se movia como uma minhoca fora da terra e uma sombra se espalhou sobre ela. Agora que seus motivos eram conhecidos, sua existência não fazia mais sentido. Sua jaula foi quebrada. Seu espírito de luta, ignóbil, foi massacrado. Seu dispendioso sofrimento acelerado foi despedaçado. Sua existência derreteu e se tornou parte do lago, ironicamente sendo desengolido pelas águas e se tornando fumaça - livre de qualquer conexão com aquela infinidade de possibilidades.

segunda-feira, 14 de abril de 2025

As 7 Chaves das 7 Correntes

 Em meus devaneios encontrei, num dos centros do infinito, no pilar brilhante de obsidiana retorcida e pontiaguda que se estende do poço obscuro das águas lamacentas da origem aos tetos - invisíveis de tão altos - do ego, a mácula assassina do flagelo; o Tormento imposto de forma sobreposta através dos grossos chicotes estirados, das densas vinhas entrelaçadas, dos pontiagudos espinhos emaranhados, das forças das brutas e pesadas correntes, das cordas retesadas e das mordaças atadas como que por manivelas intransigentes e inflexíveis, tormento que pesa enquanto corrói, enfraquece, cega e impede qualquer tipo de movimento ou sequer esperança de mudança. O caminho para o alto é reto, mas árvore alguma deve crescer como um poste.

Olhando ao redor, tais ferramentas de morte brotam da escuridão que, por mais que infinita, não permite o seu desbravamento através do mero olhar. É preciso conhecê-la para subjugá-la.

Por toda a vida, muitas vezes, são os objetivos que nos espantam. Não os objetivos em si, mas o potencial dos objetivos. De onde vem e para onde vão? É a ida sem volta? Ou é a parada sem ida? Escolha sufocante ou procrastino alucinante? Não importa.

A necessidade da busca, a necessidade da necessidade, a obrigação da obrigação, a responsabilidade imposta, a chama da vela mágica apagada, a natureza acorrentada e sequestrada, a definição externa do futuro, são todos planos. Planos de seres menores, porém numerosos e que em meus momentos iniciais, aproveitando-se de seu tamanho brevemente avantajado, ataram-me ao tronco e, como se fosse um elefante que se acostuma com a corda que após adulto não é capaz de lhe trazer nenhuma opressão a não ser a mental (e assim o prende), fui eu que empoderei ainda após o desenvolvimento do corpo humano - e da sua independência enquanto tal - as amarras criadas para me conter e não me deixar escapar do caminho reto, ordeiro, criado por aqueles tortos e desordeiros.

Desordeiros estes que não o são em poder do Caos ou da expansão ou da capacidade ou da amplitude, mas sim através da mera causalidade de suas tentativas fúteis de seguir um modelo inexistente que não se aplicou nem mesmo ao modelo que tentam desesperadamente seguir.

Afasto-me! Afasto-me desses grilhões não ao mover meus pés, mas ao expulsá-los da minha fronte, da minha existência, do meu centro, do âmago do meu ego.

Afasto-lhes pois eu não escolho um objetivo. Eu escolho um caminho. O Meu Próprio. E dele não fazem parte amarras que não foram colocadas, ou sequer aceitas, por mim mesmo. E, a partir de agora, eu não as aceito. Que na sua extensão o ranger de sua tensão e o chiar de sua resistência ecoem, que a explosão de seu arrebento seja ouvida pelas mãos malditas das almas que nos cercam. Que o vazio se torne repleto de barulho estrondoso e que o tronco da miséria humana cresça e se torne o caule arrebatador da existência poliforme. Com a chave da minha mente eu quebro a Sétima Corrente e me desvencilho de todos os anzóis da corrupção dos antepassados.

O Futuro é Meu. O Futuro é Nosso para criar e abraçar e abocanhar. Se a Magia é um alfabeto, que sejam estas as palavras que me libertam da magia de outrora.

"...he has not dedicated his life to reaching a pre-defined goal, but he has rather chosen a way of life he KNOWS he will enjoy. The goal is absolutely secondary: it is the functioning toward the goal which is important. And it seems almost ridiculous to say that a man MUST function in a pattern of his own choosing; for to let another man define your own goals is to give up one of the most meaningful aspects of life— the definitive act of will which makes a man an individual.

...you MUST FIND A NINTH PATH."

~H.S.Th

domingo, 6 de abril de 2025

Vozes do Tártaro

 Uma nova descensão. Um novo degrau abaixo. Mais um pouco de sombra - independente de qualquer luz superior.

A chama negra cria, mas também apresenta, imagens que passam de danças ululantes por ríspidas estátuas prostradas no que aparenta muros de pedra infinitamente concentrada, como um quadro que se faz diante da visão daquele que observar com o olhar de quem deseja aprender a entender.

A sabedoria do abismo é o micélio da criação, a semente da gênese de tudo que compõe aquilo que todos somos. Tudo que dele sai, tudo que nele cai, nos acompanha infinitamente. E é para ele que devemos nos voltar sempre que o rugido da vontade de contestar o que ali fez sua morada for ensurdecedor.

Pois é assim que se faz. O vale da Morte é feito de pequenas mortes não resolvidas que absorvem a alma de quem matam e se tornam cada vez mais aterradoras e inchadas, ocupando espaços e fazendo barulhos que não lhes pertencem.

Quando é impossível ignorar a sua existência, a inevitabilidade da escolha se faz presente diante dos nossos olhos como se fosse um espectro da mortalidade que nos rege. Com seus braços abertos, com seus olhos vendados e com sua forma decrepitamente plena e absolutamente ilibada em razão da veracidade incontestável da mensagem que representa, essa forma sepulcral porém vertiginosamente, assombrosamente, formidável, denota as únicas opções daqui em diante: navegar, descer as escadas até o âmago do próprio báratro das experiências e ideias, para confrontá-las de uma vez por todas (por enquanto) ou evitá-las mais uma última vez, abrindo fatalmente os portões para a eternidade das estrelas e dos planetas sombrios para além do véu que estende daqui até o além-vida.

Atingindo o precipício do matadouro de almas, face-a-face com o próprio destino revelado, o espelho negro que mostra onde cheguei e nada mais, é imprescindível seguir os conselhos da mão esquelética que escorrega do esteio desse submundo e mostra por onde caminhar para acarar aquilo que me canibaliza - e eu já sei o resultado dessa batalha infernal.

Encontrando através de caminhos ondulados o cerne da insatisfação, do sofrimento, da dúvida, do medo e do questionamento insensato e inútil, como sempre se mantém indubitável a fraqueza pálida da raiz desse sephiroth extorsor de vida. Tão evidente é a sua languidez que chega a ser repugnante o dano causado por tamanha e potente robustez de seus galhos.

Com um único olhar, a lembrança de que sua volúpia virulenta é alimentanda unicamente pela potência da afirmação e do questionamento que de mim mesmo brotam é suficiente para ceifar sua vida numa fração de segundo, aniquilando seu bulbo maldito e apodrecendo seus galhos de arbusto sem tronco como se eras fossem consumidas em um segundo.

Eu sei que a sua morte é incerta e que a ressurreição me aguarda, mas nesta batalha a vitória é (mais uma vez) minha. Aqui eu permaneço, aqui eu cultivo minha própria Qliphoth e fortaleço o exército da minha própria alma e da minha própria mente. Nos salões infinitos desse abismo eu faço minha morada, como andarilho das mãos esqueléticas extraio tudo aquilo que me é possível.

No Vale da Morte, Eu sou Seu Rei.

domingo, 16 de março de 2025

Piece by piece

 De pouco em pouco vou esvaziando.

Um pedaço aqui, outro ali. Um pedaço ali, aquele outro lá.

Desgaste. Contínuo. Esperança minada. Montanha-russa de devastação continuada.

Como uma torneira que você fecha acreditando que vai parar o fluxo mas não deixa de pingar e cuja água aos poucos vai encontrando seu caminho, abrindo-o até causar uma torrente nos momentos em que não se espera.

De um em um pedaço, o todo se esvazia de sentido. Por que? Para que? Qual o motivo? Qual o sentido? Qual o objetivo? Por que o objetivo? Faz sentido? Te causa alguma coisa?

Existe tal motivação? Parece que eu já a senti, mas ao mesmo parece que nunca tive uma convicção tão grande quanto vejo por aí?

Estaria eu refletindo além do necessário ou realmente não encontro nada que realmente faça sentido PARA MIM?

Além disso, problemas passados.

Que assim seja. Não é aqui que vou resolver, por mais que ajude.

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Relações interpessoais

 É sempre tão difícil. Por mais que eu conheça a teoria, as ideias, as palavras, a ciência, as variáveis e até os personagens, é sempre tão difícil. Às vezes não parece, mas parece que quase sempre é. Pelo menos quando falamos de forma individual e extensa.

O passado é estranho. Refletindo, agora, parece-me que nem sempre foi. Ou nem com todo mundo. Mas há categorias de pessoas com as quais sempre é. Seriam aqueles que mais admiro(ei)? Seriam aquelas mais enigmáticas? Seriam aquelas onde sinto que tenho mais a perder em forma de potencial (essa ideia que ainda se agarra como um parasita)?

Às vezes penso que isto é algo exclusivo, mas talvez não seja. Porém, não é tão comum porque é algo sempre percebido. Vai saber. Hiperanálise sempre nos decepciona e martiriza, nesses momentos.

Vergonha acumulada às vezes se transforma em compaixão pelo diferente, pelo doente, pelo transtornado. Mas não será isto um mero mecanismo de defesa? Uma forma de procurar um culpado externo? Uma parte da eterna fuga da responsabilidade? Não seria isto mais um sintoma do próprio problema? Se sim, está aí o próprio Ouroboros.

De qualquer forma, é tão difícil de lidar. Sempre foi e às vezes parece que sempre será. Medo, falta de identificação. Expectativas boas e ruins. Paralisia.

Ah, se eu soubesse. Mas é aí que mora a graça de vida. Quase nunca se sabe.

E se, sabendo, quase sempre surge um arrependimento questionável, por que não tentar sem saber?

Sei lá. É tão difícil.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Você vem

 Você vem rastejando de forma ritmada, ululante, fluida. Como uma serpente no escuro, sem começo e sem fim. Somente corpo. Sua aparência é enorme, como o tronco de uma árvore centenária que se move em homogeneidade e sufoca a mente com uma tamanha imposição trévida em meio ao corredor assombroso e de certa forma indefinido.

A luz é tão pouco que sinto como se estivesse observando uma foto; que se movimenta em tal, singular, destreza, que me confunde como que uma ilusão de ótica.

Ao ponto que percebo seus avanços, já é tarde demais. O peso sufoca qualquer semblante de esperança; e a fulgura de um campo amplo, ou de uma estrada infinita, se fecham em um instante. Instante este em que somos consumidos por uma prisão férrea e orgânica, acachapante e impositiva mas de forma além da compreensão ou da razão sórdida. É meramente intuitiva, parte essencial da humanidade. Um meio de defesa. Uma jaula não para me prender, mas para me segurar.

"Suas raízes se desprendem do chão conforme são macetadas e avacalhadas, avassaladas pelos dias, meses, anos e acontecimentos. Aqui eu te prendo, te enjaulo, te incorporo, te amasso e te assento novamente. Uma planta transplantada é preciso sê-la à força. Se o solo em que está é pobre, ou se passam por ela e a atacam a ponto de colocarem em risco a sua vida, é mais que necessário arrastá-la para onde esteja a salvo. E dali não tirá-la nem deixá-la se arrancar. É ali que ela se fincará novamente na fundação da Terra e apontará, ao mesmo passo, para os Céus e para os Infernos. Assim como em cima, também embaixo. Um sozinho é a morte. Os dois juntos, e tem uma vida."

De soslaio percebo, da única forma que consigo observar enquanto me afundo e me dou à força, e não à luz, que o movimento continua enquanto eu me absorvo em minha própria existência para mais uma vez me aterrar nas bases desse monumento deificante. Demiurgo, eu sou tanto aquele que é pisado e deformado quanto aquele que pisa e deforma. Sob meus próprios pés, sob meu corpo de serpente, eu me formo como avatar de mim mesmo.

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Para aqueles que choraram de decepção

 Não se sinta mal por chorar de tristeza, de decepção, de raiva... de ódio. O que você sente é o reflexo de quando, por um motivo ou por outro, esperamos algo de alguém - algo que consideramos muitas vezes simples - mas recebemos em troca o oposto, ou nada.

Pode parecer que a noite que agora te envolve é sombria e misteriosa, mas lembre-se que é durante as noites mais escuras que as estrelas aparecem para nos guiar. E que, se você continuar olhando para cima e para frente, essa escuridão servirá para te mostrar o brilho daquilo que realmente importa. Aquilo que sempre fará parte de você, que fará de você você, independente das suas expectativas e das outras pessoas.

É o seu caminho. É a sua motivação. É o seu sentido. É a luz que você sempre possuiu e que, por mais que às vezes pareça que os outros não veem, não só há muitos que a enxergam como também não é isso que importa, mas sim que você ande lado-a-lado com ela e a cultive, deixando-a te guiar e guiando-a em direção ao seu destino - ao seu futuro - seja ele qual for e quantas vezes ele mude.

Saiba que há muito o que se orgulhar de você, e que o que os outros fazem diz mais respeito a eles, assim como o que você fará a partir de agora, e como lidará com esse momento, dirá respeito somente a você. Se suas ações trouxerem mais pessoas para perto, ótimo. Se não, o resultado será o mesmo. Pois é por nós mesmos que vivemos e agimos, e não pela aceitação do outro. Fazemos o que achamos correto com o conhecimento que temos naquele momento, pois é isso que somos e que sempre seremos.

Quando a noite acabar, onde você estará?

domingo, 30 de junho de 2024

Agora

 Olhe pra mim agora.

Estou onde você planejava e esparava? É claro que não. Saoraros aqueles que estão. E o que pensar sobre isto? Deveríamos nós seguirmos a vida conforme o plano autodivino de um predecessor e devemos vivê-la e entendê-la e escolhê-la às nossas regras? Entre as duas opções, a segunda me parece muito mais atraente.

De toda forma, mesmo estando no caminho que eu trilhei, ainda assim há muito que poderia ter sido diferente. Porém, o passado não existe a não ser na nossa mente. O que existe são as suas consequências. Então, só posso dizer que ainda há muito espaço para ser planejado, pois a cada curva e a cada saída do caminho o leque se abre ainda mais, e onde estarei no futuro será surpreendente até para mim mesmo.

Viver é aceitar tais regras fundamentais.

sexta-feira, 10 de maio de 2024

Vontade e Potência

 Vontade de Potência, resumida pela busca pela Vontade de Potência.

O círculo infinito da busca não do objeto, ou do objetivo, mas da realização da sua força imanente e potencial. É aí que reside o poder da ação. Não no resultado, mas na ação em si. O poder fazer é o que sacia a vontade de fazer. A ação legitima a crença na força individual; na manifestação de uma existência que se mostra válida, forte e suprema dentro do que lhe é proposta por si mesma.

É isto que engrandece o indivíduo. O que é gerado por si próprio. As opiniões e vontades alheias não mais importam. Perante a força da Vontade de Potência, tudo cai ao chão. E é sobre os escombros de possíveis muros que ela se engrandece. É daí que sai seu sustento; é aí que ela se alimenta.

A proposta da existência do inalcançável é dialética, pois ao mesmo tempo que pode quebrar a Força interna, se rígida o bastante para segurá-la, pode a maximizar, mediante as possibilidades daquele momento, com a grandeza do estrondo de sua queda.

É a derrubada dos muros - internos e externos - que projeta para o mundo quaisquer movimentos. É o desafio de fogo - o teste final - que pressupõe a subida (ou não) para os salões da magnitude humana. Porém, após escalá-los, não mais se fazem suficientes. É preciso alcançar os deuses, os titãs, o universo.

Suficiente não é existente. É o refúgio dos fracos e medíocres. É na sede, na volúpia, na busca pelo mais, que reside a Chama da Vida. O Impulso de Seguir em Frente. Vontade de Potência.

quinta-feira, 25 de abril de 2024

Desvalorização em Evolução

 É estranho como de vez em quando sinto que a hora está chegando.

Nada mais tem sentido. Nem sentido no sentido metafísico nem sentido no sentido pós-niilista, em que finalmente descobrimos que somos nós que damos sentido à palavra "sentido". Não sinto mais nada disso.

Propósito.

Vontade.

Conexão.

Relação.

Onde? Perdidos. Perdidos em meio ao lugar onde chegamos. Um lugar em que nada é valorizado, nada valoriza. Exploração constante, onde uns ascendem a pirâmide enquanto a constroem com os corpos dos demais, é a norma. E, mesmo nas baixadas abissais, não há união nem compaixão. Muito menos consciência. É só lamúria (e aqui contribuo com a parte que me cabe) e frustração. Ação se tornou passado. É muito arriscado. Somos muito importantes. Um grão de areia, uma gota d'água, porém extremamente importantes.

Dicotomia terrível. Enquanto defendo a deificação do indivíduo, também torço para que haja em prol do bem coletivo. Será que a ginástica mental para dar sentido a isso tudo vai longe demais? Ou será que é uma situação que só pode ser explicada de tal forma? Afinal, conclusões extraordinárias requerem provas extraordinárias. Não é assim que aprendemos?

Enfim. Se fazia necessário extravasar, assim como eu sempre recomendo, pra esvaziar algumas gavetas e dar espaço para tudo que está batendo na porta, pedindo pra entrar. Entre mas não sinta-se em casa. A geladeira está vazia e as cadeiras estão cheias de roupas. Estou ocupado demais pra processar vocês neste momento.

A desvalorização me aguarda.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

Descontinuidade

 Em meio a tantos interesses, identidades, características e personalidades, sempre tive um conflito. Uma tribulação, caso queira.

Dificilmente levo aquilo que me interesso a um nível de seriedade quase absoluto, aquele em que se aprende além da fase da lua-de-mel, aquele em que vejo as pessoas se dedicando dias a fio e aperfeiçoando sua obsessão como se fosse a lâmina de uma faca passando por diversas gramaturas de abrasivos até adquirir um polimento tão fino que se torna indistinguível de um rio durante as neblinas da manhã. O esforço é tão grande, contínuo e prova penitente cabal da dedicação sem-fim que ele próprio desaparece, deixando uma perfeição técnica que reflete uma máscara desesforçadamente fácil. Se torna tão natural que podemos comparar a maestria técnica dessas pessoas focadas a um galho de árvore, enxertado em outra de forma que se torna parte desta e age como tal - compartilhando seiva e vida.

História, música, artes plásticas, design, dentre tantos outros, fazem parte da minha vida porém mais como uma compilação de artigos científicos do que como um livro completo. Por mais que os temas sejam diversos e alguns sejam mais longos e específicos que outros, todos se portam como uma apresentação introdutória.

"Antes saber um pouco de tudo do que muito de uma só coisa"

Lembro nitidamente do dia em que proferi esta frase, talvez pela primeira vez de muitas. E ela não só já me refletia na época como também me acompanha até hoje.

Sob Sol e sob luar, na calmaria e desespero, prometi a mim mesmo quebrar mais este molde. Porém se apresenta como um dos mais densos e mais poderosos. Até mesmo aqui, neste diário, a frequência infrequente se faz parte do problema. Saber que não estou sozinho é reconfortante, mas nada resolve.

Estar cercado daqueles com o mesmo problema só o transforma numa normalidade. É no diferente que se deve buscar a cura.

segunda-feira, 27 de novembro de 2023

Vontade de poder parte II: mundo físico

Muito eu falo da força de vontade e da vontade de poder, porém - após eu passar anos sentindo a presença dela - só agora tomei consciência da vontade de poder em sua forma palpável, real, imutável, objetiva,  concreta, pétrea.

A vontade de poder que se manifesta no mundo físico: no mundo das coisas e não das ideias.

E é aí que realmente a entendemos. Quando não há necessidade de abstração ou metáforas, pois ela se faz presente diante de nós como objetos do mundo real que simplesmente não podemos. Não somos o suficiente para poðē-los. Nossa força se faz pouca, nosso poder insignificante, para sermos aquele que poderia.

Nos sentimos extraídos daquele mundo, pois dele não fazemos (mais) parte e quem sabe quando faremos. É aqui que vemos a força de vontade não como uma força mental mística e metafísica, mas como uma chama que deve alimentar nossas ações. É através dela que devemos agir no mundo palpável, se quisermos que nosso resultado também seja no mundo que se toca.

As portas da mente muitas vezes se abrem, mesmo que paraa conceitos simples e claros, quando os observamos e os analisamos em primeira pessoa.

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Eventos Divisivos

Normalmente, categorizamos nossas vidas em eventos.

O momento em que quebrei o braço, o dia em que eu formei, quando eu aprendi a andar de bicicleta, o fim do segundo namoro, e por aí vai.

Porém,

falhamos em perceber que o importante da vida não são esses momentos.

O importante da vida,

são todos os momentos. Sejam marcantes - históricos na História do nosso Universo - ou não, todos eles fazem parte da teia que constrói as pessoas que somos. Todos fazem parte do humano que formamos.

Por isso, é preciso sermos conscientes das nossas ações mais corriqueiras. Pois é nelas que construímos, ou desfazemos, nossas vidas. É nelas que aproveitamos o tempo que temos ou o jogamos fora.

É nos momentos mais esquecidos que analisamos, vivemos, aproveitamos, construímos, observamos, destruímos, escolhemos (sem perceber), evoluímos (se é que isso existe), progredimos (outro termo duvidoso), regredimos (que maniqueísmo é esse?) e criamos/desenvolvemos a vida que vive(re)mos.

Não joguemos fora o nosso tempo sendo reativos ou passivos no passar da foice sobre o trigo, pois quando chegarmos em certa altura será nossa vez de ser ceifados.

Olhemos para o que fazemos não com criticismo científico, mas com criticismo de valor. É válido o que eu estou fazendo com a vida que tenho? E desvinculemos disso o que os outros - ou as estruturas socioeconômicas - consideram válido.

O que é válido, é válido para você.

Faça o que queres há de ser tudo da lei, porém primeiramente aprenda o que realmente queres;

domingo, 15 de outubro de 2023

Impaciência

Refém da cachoeira infame de estímulos, distrações, interesses, trivialidades, informações incompletas - e completas, embora raramente. Como que por uma escada espiral, mergulhei passo-a-passo neste funil psicológico; intencionalmente ou não, o caos e a decadência inevitáveis deste sistema monopólico fazem com que o fantasioso e o escapismo se tornem mais e mais interessantes. Buscando fugir da persistência da inabilidade de mudança, inabilidade esta exclusiva da maioria insignificante que se coloca à mercê de uns poucos, damos nossas vidas ao efetivo nada.

Desses estímulos nada provém, a não ser o vício da impaciência, do movimento falso porém continuo e da velocidade elevada que nos impede de parar por sequer um minuto para observar, ler, escrever, criar, nos manifestarmos - e esta lhes é a mais lucrativa - e sermos nós mesmos. Não decidem o que falamos ou fazemos, mas decidem sobre o que falamos e sobre o que fazemos. Assim como também decidem o que não fazemos.

Para mim, se tornou mais difícil escrever de forma não-reflexiva. Como evidente neste exato momento de minha escrita, só tenho escrito sobre o que me passa no momento. Longe está a criatividade e a exploração do inesperado e da invenção. Ainda é possível pescá-las, porém a linha deve ser longa e a pesca deve ser profunda, ambos requerendo uma paciência cada vez mais escassa e reduzida.

Reversível? Sim, assim como qualquer outro vício. Porém, sua facilidade e impensabilidade em sua condução o tornam cada vez mais sádico, pois é um vício que nada custo e que se encrusta em nossa realidade assim como o ar que absorvemos em nossos pulmões.

Longínquos estão os dias em que me bastava observar as chamas enquanto sons feéricos dançavam no ar em torno de mim. Longínquos estão os dias de meditação, criação, solitude, solicitude, honra, devoção, unicidade e mitologias individuais.

Longínquos para trás, em direção ao passado, e provavelmente longínquos para frente, em direção ao futuro. Porém, assim como a ametista presa dentro do geodo, é possível quebrá-lo e revelar, em nova forma espatifado porém talvez mais repleto de nuances e variações.

Muito me apetece a probabilidade e a responsabilidade pessoais de dar sequência a estes projetos de pensamentos, mas obviamente não é algo que me parece fácil. Principalmente se levarmos em consideração a necessidade de fazê-lo dia após dia, de forma totalmente consciente.

Porém, é isso que nos faz tão diferentes das demais espécies. A consciência com a qual realizamos nossas ações. Não devo deixar que esta também se esvaia, mas sim utilizá-la como o antigo martelo que eu jurei que utilizaria para arrebatar o metal da minha vida, porém agora para fender a rocha em que o cristal do verdadeiro valor da minha, enquanto minha, existência se encontra aprisionado

Fonte: https://br.pinterest.com/pin/672232681898725326/


quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Meditações

De que me serve a dor e o sofrimento causados por algo que foi produzido por mim e que estes não podem mudar? Seria vantajoso senti-los para impedir que este algo aconteça novamente no futuro?

Mas não é esta a origem das consequências dos traumas, que nos comandam de forma irracional por reverberarem acontecimentos do passado assim como uma corda não tocada vibra ao sentir a frequência com a qual que foi retesada na vibração de outra corda?

Não sabia eu, naqueles momentos passados, de forma racional, que aquelas atitudes me trariam sofrimento naquele presente e no atual futuro? E mesmo assim agi da forma de agi.

Não seria mais prudente agir de acordo com a minha racionalidade da próxima (ou das próximas) vez ao invés de buscar um mecanismo - ou falta de mecanismo - que me evite sofrer?

Seria esta uma nova tentativa de atribuir responsabilidade a um meio externo, ou falta de responsabilidade a um meio interno?

Por fim, deixar de sofrer pelo que já vem sendo sofrido há muito e pensar em agir de forma a enfrentar as consequências me parece mais produtivo.

As dores do corpo são inevitáveis, porém as da mente merecem certo controle - ou pelo menos tentativa de.

sábado, 7 de outubro de 2023

Frágil Humanidade

 

descansem em paz todos os que já foram e todos os que ficam, pois esta falta de paz é só mais um resultado de nossas fragilidades