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terça-feira, 17 de março de 2026

Sombras na Floresta das Sombras

 Nas minhas andanças, me deparo com uma singela porta em minha frente. Uma porta sem características. Um portal, é possível. Um leve buraco em meio a uma parede infinitamente enorme e da mais profunda escuridão. Olhando para os lados, um sem-fim de cor preta, ausente de luz. Olhando para frente, aquela passagem de luz ofuscante atravessando sua mão gelada e convidativa.

-Então, desta vez, será preciso sair antes de entrar novamente. Viver antes de reviver. Experimentar antes de processar.

Atravessando a porta, o destino se esparramava como um tapete: uma vastidão que subia, em certa inclinação, em direção a algo. Subindo-a, de maneira cansável mas persistente, se tornava impossível não questionar o objetivo daquela caminhada. Onde levaria? Por onde passaria? Estaria eu meramente sendo expulso do meu próprio ser?

Foi quando, de forma bastante repentina, talvez pela característica introspectiva da visão dos meus devaneios, me encontrei próximo a uma floresta de sombras: árvores efetivamente iguais, relativamente bem espaçadas, formadas completamente por sombras. Seu contorno me era óbvio, porém seu conteúdo se fazia suspeito e suas cores profundamente obtusas ao mesmo tempo aglutinavam com suas próprias sombras e contrastavam com a clareza quase branca do chão que era o alicerce do meu caminhar. Ao chegar em sua fronte, o caminho continuou o mesmo - como que se alguém houvesse predeterminado esta passagem, independente do que houvesse no entorno de mim mesmo. Se de olhos fechados eu estivesse, nada haveria mudado; a não ser o vento do descampado, agora trocado pelo silêncio de uma floresta morta.

Após horas de mesmice, de caminhada, de dúvidas, de lampejos autóctones e de cansaço, cansaço este derivado da intolerante caminhada incerta, fui recebido pelo primeiro semblante de mudança: uma sombra que se moveu de dentro do tronco de uma daquelas árvores malditas. Como se tremesse, uma sombra se despregou do cerne de onde habitava e decolou, com asas horrendas, em direção ao céu, voando primeiramente em círculos misteriosos, fazendo presente a sua existência como se quisesse mostrar que ali estava, ali viera, e como se ousasse me adiantar que, até o fim daquele capítulo, também eu estaria serpenteando pelo espaço. Enquanto observava o alto, sem embora pausar por um segundo a minha marcha, me dei conta de que outras daquelas criaturas, sombrias e de corpos aviformes, com olhos amarelados como lâmpadas de ruas antigas, faziam presença da mesma forma que a primeira, aos poucos me cercando como o faria uma matilha de hienas, prontas para a emboscada.

Formando um enorme círculo, uma ciranda horrível de sombras pontilhadas de dourado veloz, começaram a se abaixar até atingir a minha altura, então voltando-se contra a minha existência - atacando com a voracidade de predadores noturnos famintos por sangue que para eles era novo. Naquele momento praguejei, me cobri com minhas longas vestes e acelerei meu passo, brandindo o que podia contra aquelas pestes: braços, galhos, palavras de ordem, maldições, súplicas, revoltas.

Ao levantar a cabeça, a floresta a minha frente estava em chamas. Labaredas cobriam sua vastidão, ainda assim incapazes de clarear as feições das árvores ou das criaturas, da mesma forma que aquela porta era incapaz de clarear as paredes de vazio ancestral. Um a um, dominei aqueles demônios com meu desespero às vezes caótico, porém sempre ordenado. Contradição bem-vinda. Porém, ao afogar o último deles em determinação, à frente agora se encontrava um humanoide, fruto das criaturas abissais que me tomaram de assalto, como que um portão fechado que interrompia qualquer peregrinação. Porém, o obstáculo maior estava atrás dele: um penhasco cujo tamanho e cuja inclinação me eram invisíveis. Duas pedras para um único cajado.

O medo tomou conta do meu ser. Uma questão se tornou evidente: Me entregar ao retorno ao passado sem destino, às chamas, aos corvos malditos, ou enfrentar o monstro adiante, que ao invés de uma montanha de ouro guardava a chave da incerteza do amanhã?

 Por falta de escolha e, admito, por curiosidade, desta vez mantive os olhos no caminho. Acelerei minhas pernas com todas as forças que ainda podiam restavam e, num último segundo, mirei no centro da besta e a abracei enquanto lançava-nos em direção ao abismo.

Ao desconhecido.

Levitamos no ar. Foi como se, por quase-intermináveis segundos, voássemos em direção ao nada. Porém, olhando a massacrante escarpa que marcava a próxima fase daquele capítulo da minha viagem, apoiei sobre a criatura aterrorizante, que se debatia em vão. Ao cair, sua estrutura tenebrosa amorteceu a queda e, a cada batida contra as duras pedras, foi deixando sua umbra esfarelada pela encosta enquanto se desfazia. Após o fim de sua vida, conforme eu deslizava e capotava pelo terreno íngreme, em instantes percebi estar próximo a uma praia, de onde era possível contemplar um navio atracado. Meu próximo destino, imaginei.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Castelo amaldiçoado

 Se você constrói seu castelo sobre um mar de esterco, ele sempre se afundará e sempre estará manchado de esterco. Você pode construir altas torres, criar bandeiras esvoaçantes, entradas douradas, tronos suntuosos. Tudo tomará um tom marrom, esverdeado, amarelo... todos variantes do mesmo esterco sobre o qual sua fundação repousa. Portas de madeira entalhada, roupas trabalhadas, festas planejadas... tudo será parte do diamante que repousa sobre o mar do lamaçal onde você construiu sua moradia.

Faça o que fizer, melhore o que quiser, vença todas as lutas, progrida e ordene; se você o fizer sobre uma estrutura de contradição, insatisfação, rejeição e sentimento de não-pertencimento, você terá construído a sua maior obra - você mesmo e sua vida - sobre um terreno corrompedor de qualquer vitória ou alegria que pudesse alcançar com suas ações. O miasma do desgosto penetrará suas janelas, o esterco e o lamaçal cobrirão suas pernas e a instabilidade vai ruir suas paredes, desmoronando tudo sobre sua cabeça.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Multitude of Foes

 Se eu possuo vontade de fazer algo, porém não o faço - mesmo tendo plenas capacidades de fazê-lo - então pressuponho que existe algo dentro de mim que não deseja fazer aquilo. Sou eu, hoje ontem ou amanhã, ou é alguém, real ou imaginário, nas entranhas de mim mesmo, contracenando com a consciência dominante que aqui majoritariamente vos fala? Aqui os divido em tópicos e interpretações, porém tenha em mente que todos podem, e quase sempre devem, estar interligados.

Se sou eu mesmo, talvez simplesmente não tenho certeza se quero, devo ou consigo. E aqui falamos do eu presente no presente, atual, desmascarado e em dúvida. 

Porém, os problemas surgem em ordens maiores principalmente quando falamos dos outros eus: passado e futuro. Por mais que só exista o presente, neste também manifesto versões e visões de mim mesmo em outros tempos, com o passado sabotando o hoje com medos, traumas, dúvidas, consequências. Errar? Sofrer? Arrepender? Perder tempo? Não fizemos isto antes? Como o ser que você foi e foi construindo ao longo dos anos se encaixaria, ou pior, veria a sua vontade de hoje? De agora. Do presente. O que você faz representa quem você é? Não já fizemos diferente antes? Não vivemos fazendo diferente e hoje aqui estamos? Por que mudar? Por que inovar? Por que inventar?

O eu presente no futuro, por sua vez, concatena com o pretérito ao temer o desconhecido. As vontades atuais não impedem um futuro que acompanha o presente? Que acompanha o passado? É como se me encontrasse entre cordas, esticadas pelos braços do futuro e do passado, do ontem e do amanhã, que me prendem no mesmo caminho e proíbem que serpenteie pelo espaço-tempo.

Por fim, existem os outros. Os demais. Reais (conhecidos, nomeados), ou não (arquétipos pessoais, representações imaginárias ou estereótipos, ainda assim reais no mundo interior), possuem uma força que justifica seu axioma acachapante de poder através da externalidade - fortalecida pela sensação de viver como um impostor dentre verdadeiros que o analisam ao leve pensamento de fugir das cordas de quem se sempre foi. Implantados na mente por experiências passsadas - na sua maioria sociais - perpetuam-se nos escombros da memória, reanimados pelo eu presente de formas abomináveis. 

Por mais que sua existência possua raízes muitas vezes defensivas, ou de fragrâncias confortáveis, devemos desafiar tal presença na primeira reflexão causada pela hesitação. Certo, errado, compensatório, necessário, bom, ruim, são todos formas de ver e perceber cujo martelo final e atuante DEVE descansar e agir somente nas mãos da consciência dominante. Não se esqueça.

Feliz natal.

domingo, 8 de dezembro de 2024

Fé inabalável

 Sua fé era tamanha que o senhor seu deus só poderia recompensá-la de uma forma: com a morte. Foi pensando nele que viveram a totalidade de suas vidas. Foi no momento em que a linha seria fatiada e o portal do desconhecido atravessado. Um a um eles foram ceifados: a maioria pela praga, mas muitos também pelos diversos outros motivos que levam humanas todos os dias.

Engraçado que não só eles como milhões de outras pessoas, com crenças bem menores, também foram levadas em mesma proporção e pelas mesmas causas. O hilário é que, a única diferença, estava no sentido atribuído por cada um. Uma mera forma de pensar mudava tanto a situação que pareciam estar passando por coisas extremamente diferentes.

Mas é assim com toda a vida.

Ideais, fundamentos e moralismos são como cores, sabores, cheiros e texturas: a vida possui substância e características inerentes, mas o tempero, a forma de preparo e as preferências individuais de cada um são o que realmente moldam a experiência de quem a vive.

Bem e mal, viver e morrer: para uns são conceitos fugidios além da vida e da morte, enquanto que para outros só existem a vida e a morte e delas nada foge.

Por bem ou por mal, é aí que mora a graça de ser humano. Nas variações, nas diferenças, nos temperos. E na coleção que fazemos deles e nos que deixamos para trás. Evoluímos tanto no decorrer dos milênios como no decorrer de horas, minutos, dias, anos, meses ou textos.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Você vem

 Você vem rastejando de forma ritmada, ululante, fluida. Como uma serpente no escuro, sem começo e sem fim. Somente corpo. Sua aparência é enorme, como o tronco de uma árvore centenária que se move em homogeneidade e sufoca a mente com uma tamanha imposição trévida em meio ao corredor assombroso e de certa forma indefinido.

A luz é tão pouco que sinto como se estivesse observando uma foto; que se movimenta em tal, singular, destreza, que me confunde como que uma ilusão de ótica.

Ao ponto que percebo seus avanços, já é tarde demais. O peso sufoca qualquer semblante de esperança; e a fulgura de um campo amplo, ou de uma estrada infinita, se fecham em um instante. Instante este em que somos consumidos por uma prisão férrea e orgânica, acachapante e impositiva mas de forma além da compreensão ou da razão sórdida. É meramente intuitiva, parte essencial da humanidade. Um meio de defesa. Uma jaula não para me prender, mas para me segurar.

"Suas raízes se desprendem do chão conforme são macetadas e avacalhadas, avassaladas pelos dias, meses, anos e acontecimentos. Aqui eu te prendo, te enjaulo, te incorporo, te amasso e te assento novamente. Uma planta transplantada é preciso sê-la à força. Se o solo em que está é pobre, ou se passam por ela e a atacam a ponto de colocarem em risco a sua vida, é mais que necessário arrastá-la para onde esteja a salvo. E dali não tirá-la nem deixá-la se arrancar. É ali que ela se fincará novamente na fundação da Terra e apontará, ao mesmo passo, para os Céus e para os Infernos. Assim como em cima, também embaixo. Um sozinho é a morte. Os dois juntos, e tem uma vida."

De soslaio percebo, da única forma que consigo observar enquanto me afundo e me dou à força, e não à luz, que o movimento continua enquanto eu me absorvo em minha própria existência para mais uma vez me aterrar nas bases desse monumento deificante. Demiurgo, eu sou tanto aquele que é pisado e deformado quanto aquele que pisa e deforma. Sob meus próprios pés, sob meu corpo de serpente, eu me formo como avatar de mim mesmo.

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Para aqueles que choraram de decepção

 Não se sinta mal por chorar de tristeza, de decepção, de raiva... de ódio. O que você sente é o reflexo de quando, por um motivo ou por outro, esperamos algo de alguém - algo que consideramos muitas vezes simples - mas recebemos em troca o oposto, ou nada.

Pode parecer que a noite que agora te envolve é sombria e misteriosa, mas lembre-se que é durante as noites mais escuras que as estrelas aparecem para nos guiar. E que, se você continuar olhando para cima e para frente, essa escuridão servirá para te mostrar o brilho daquilo que realmente importa. Aquilo que sempre fará parte de você, que fará de você você, independente das suas expectativas e das outras pessoas.

É o seu caminho. É a sua motivação. É o seu sentido. É a luz que você sempre possuiu e que, por mais que às vezes pareça que os outros não veem, não só há muitos que a enxergam como também não é isso que importa, mas sim que você ande lado-a-lado com ela e a cultive, deixando-a te guiar e guiando-a em direção ao seu destino - ao seu futuro - seja ele qual for e quantas vezes ele mude.

Saiba que há muito o que se orgulhar de você, e que o que os outros fazem diz mais respeito a eles, assim como o que você fará a partir de agora, e como lidará com esse momento, dirá respeito somente a você. Se suas ações trouxerem mais pessoas para perto, ótimo. Se não, o resultado será o mesmo. Pois é por nós mesmos que vivemos e agimos, e não pela aceitação do outro. Fazemos o que achamos correto com o conhecimento que temos naquele momento, pois é isso que somos e que sempre seremos.

Quando a noite acabar, onde você estará?

domingo, 30 de junho de 2024

Agora

 Olhe pra mim agora.

Estou onde você planejava e esparava? É claro que não. Saoraros aqueles que estão. E o que pensar sobre isto? Deveríamos nós seguirmos a vida conforme o plano autodivino de um predecessor e devemos vivê-la e entendê-la e escolhê-la às nossas regras? Entre as duas opções, a segunda me parece muito mais atraente.

De toda forma, mesmo estando no caminho que eu trilhei, ainda assim há muito que poderia ter sido diferente. Porém, o passado não existe a não ser na nossa mente. O que existe são as suas consequências. Então, só posso dizer que ainda há muito espaço para ser planejado, pois a cada curva e a cada saída do caminho o leque se abre ainda mais, e onde estarei no futuro será surpreendente até para mim mesmo.

Viver é aceitar tais regras fundamentais.

sexta-feira, 10 de maio de 2024

Jogo de Palavras

Conceitos me são caros. Sempre gostei de entender os significados das coisas. Por que? Por qual razão? Por qual motivo? Qual o significado? Onde está o sentido?

Racionalizar, analisar, entrelaçar, relacionar, enteiar: alguns de meus passatempos favoritos. Para mim, ligar coisas através de seus sentidos é algo que me é natural pois é algo que provoca uma condição exploratória: uma abertura de novas portas, que talvez nem existissem. A descoberta do novo, ou do escondido.

E é daí que vem o jogo de palavras. Para jogar, é necessário entender as regras. Os significados (absolutos e definidos ou prováveis) de cada peça. E é aí que entendemos que as jogadas são infinitas. É aqui que eu jogo e brinco com elas. No meu domínio, o sentido me cabe. Porém, quando entrar nele, sinta-se livre para aproveitar os frutos das árvores que mais lhe aprazerem. Traga suas próprias peças e as una às minhas, as compare, as aproveite e as jogue contra as que aqui lanço. Lutemos neste campo de batalha onde todos que jogam saem ganhando.

Redação, dissertação, análise, tese, antítese, síntese, poema, prosa, narrativa, fato, estilo, cadência, tratado, manifesto, e todas as outras infinitudes de possibilidades. Tanto faz. Exercitemos nossa capacidade de distribuir conceitos e seus sentidos. Se todo problema é um problema linguístico, comecemos com as perguntas mas introduzamos as respostas enquanto aquelas ainda estão sendo feitas. Não deixemos para o casa das letras a soberania sobre elas. As portas nunca estiveram fechadas pois somos feitos de significados. O mundo só o é enquanto o avaliamos. Todo julgamento é construtor, mesmo que for construtor de destruição.

O faça não por inspiração, mas sim por necessidade de alimentar a chama do questionamento infinito. Do exercício interminável da abstração.

Vontade e Potência

 Vontade de Potência, resumida pela busca pela Vontade de Potência.

O círculo infinito da busca não do objeto, ou do objetivo, mas da realização da sua força imanente e potencial. É aí que reside o poder da ação. Não no resultado, mas na ação em si. O poder fazer é o que sacia a vontade de fazer. A ação legitima a crença na força individual; na manifestação de uma existência que se mostra válida, forte e suprema dentro do que lhe é proposta por si mesma.

É isto que engrandece o indivíduo. O que é gerado por si próprio. As opiniões e vontades alheias não mais importam. Perante a força da Vontade de Potência, tudo cai ao chão. E é sobre os escombros de possíveis muros que ela se engrandece. É daí que sai seu sustento; é aí que ela se alimenta.

A proposta da existência do inalcançável é dialética, pois ao mesmo tempo que pode quebrar a Força interna, se rígida o bastante para segurá-la, pode a maximizar, mediante as possibilidades daquele momento, com a grandeza do estrondo de sua queda.

É a derrubada dos muros - internos e externos - que projeta para o mundo quaisquer movimentos. É o desafio de fogo - o teste final - que pressupõe a subida (ou não) para os salões da magnitude humana. Porém, após escalá-los, não mais se fazem suficientes. É preciso alcançar os deuses, os titãs, o universo.

Suficiente não é existente. É o refúgio dos fracos e medíocres. É na sede, na volúpia, na busca pelo mais, que reside a Chama da Vida. O Impulso de Seguir em Frente. Vontade de Potência.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Estereótipos e contradições - Devaneios óbvios

Enquanto eu ouvia música hoje, me peguei refletindo sobre algumas coisas. Lá vai: 

Engraçado como, ao mesmo tempo em que tentamos nos afastar de estereótipos, são eles que regulam grande parte das nossas vidas - mesmo se estivermos cientes, e tentarmos agir de forma consciente, quanto a eles. São transformados através de uma lógica ferramental, em que cada categoria de pessoa possui uma utilidade, papel ou capacidade. É óbvio que isto vem de tempos imemoriais, em que estes papéis eram considerados (e muitas vezes realmente eram) essenciais para a sobrevivência de cada grupo, mas as consequências destas associações se estendem até hoje através ou dos papéis antigos ou de cargos novos, reforçados pelas ideias antigas.

Para esta análise, vou me deter aos estereótipos de gênero.

Para a lógica social atual as mulheres são vistas (dentre outras coisas) como detentoras da beleza, e está claro que isto permeia o seu dia-a-dia em sociedade de forma perene. Quando nós homens olhamos para as mulheres, é esperado pela norma social que vejamos nelas encanto, gentileza, suavidade, fluidez, graciosidade, entre tantos outros adjetivos que explicam o significado da palavra beleza. Por mais que em uma análise rasa isto possa parecer algo bom (principalmente se a pessoa lendo for homem), o problema está na precisão desta visão: é só isto que se vê.

Não se vê a arte, a inteligência, o esforço, as dificuldades, a velocidade, a sagacidade, a força, a resiliência, a criatividade, nem nenhum outro atributo. Não de forma desassociada do conceito do que é belo. Tudo está sempre ligado ao corpo, e mesmo quando as elogiamos pelo que são e fazem, quase sempre atrelamos tal admiração à estética pessoal do ser, quase que (quando não exatamente) como forma de cortejo. O foco está na perpetuação da espécie. Na reprodução e na valorização dos descendentes. Por isso, também, que seus pensamentos são muitas vezes descartados ou acachapados em detrimento de sua aparência. Esta última já basta e muitas vezes é a única característica desejada pelo outro lado da moeda.

Já nós, os homens, sofremos muito menos desse tipo de análise. Talvez por termos sido - e sermos até hoje - os detentores do maior poder sobre ela própria. Porém, não estamos imunes. Como é difícil olhar para si mesmo e perceber tais coisas, já aceito que minha análise aqui talvez seja mais equivocada do que no primeiro caso. Porém, é visível que o papel do homem recai sobre o conceito de força.

Não sempre a força simples, baseada em músculos ou quantidade de carga. Mas sim na capacidade percebida para a violência. Os homens quase sempre tiveram o papel de defender o grupo e de garantir que as fontes de sobrevivência seriam asseguradas para os tempos que virão, por quaisquer meios fossem necessários. Por isto, precisava ser capaz de, e estar preparado para a, violência.

Já nos dias atuais, estes dois casos se tornam uma espécie de profecia autorrealizável, cuja existência já é suficiente para garantir sua realização. Porque hoje, por mais que o homem não precise ser o defensor da capacidade de sobrevivência e a mulher não precise ser o molde das futuras gerações, há diversas pesquisas que apontam que as pessoas mais atraentes são mais bem-sucedidas. As mulheres não precisam ter filhos nem cuidar das casas, e os homens não precisam caçar nem lutar contra outros homens, porém ainda assim as mulheres consideradas mais "belas" e os homens mais "intimidadores" costumam ter a vantagem. Tanto no âmbito social, quanto no empresarial, quanto no amoroso. A companhia das pessoas consideradas como modelos sempre se faz mais aprazível e vantajosa.

Ou seja, por mais que os motivos atuais sejam outros, um pouco mais distantes de tempos antigos, os resultados ainda são semelhantes e os estereótipos ainda se mantém. Por mais que lutamos contra eles diariamente, é nos nossos instintos que muitas vezes as raízes dessas crenças estão afirmadas.

segunda-feira, 27 de novembro de 2023

Vontade de poder parte II: mundo físico

Muito eu falo da força de vontade e da vontade de poder, porém - após eu passar anos sentindo a presença dela - só agora tomei consciência da vontade de poder em sua forma palpável, real, imutável, objetiva,  concreta, pétrea.

A vontade de poder que se manifesta no mundo físico: no mundo das coisas e não das ideias.

E é aí que realmente a entendemos. Quando não há necessidade de abstração ou metáforas, pois ela se faz presente diante de nós como objetos do mundo real que simplesmente não podemos. Não somos o suficiente para poðē-los. Nossa força se faz pouca, nosso poder insignificante, para sermos aquele que poderia.

Nos sentimos extraídos daquele mundo, pois dele não fazemos (mais) parte e quem sabe quando faremos. É aqui que vemos a força de vontade não como uma força mental mística e metafísica, mas como uma chama que deve alimentar nossas ações. É através dela que devemos agir no mundo palpável, se quisermos que nosso resultado também seja no mundo que se toca.

As portas da mente muitas vezes se abrem, mesmo que paraa conceitos simples e claros, quando os observamos e os analisamos em primeira pessoa.

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Eventos Divisivos

Normalmente, categorizamos nossas vidas em eventos.

O momento em que quebrei o braço, o dia em que eu formei, quando eu aprendi a andar de bicicleta, o fim do segundo namoro, e por aí vai.

Porém,

falhamos em perceber que o importante da vida não são esses momentos.

O importante da vida,

são todos os momentos. Sejam marcantes - históricos na História do nosso Universo - ou não, todos eles fazem parte da teia que constrói as pessoas que somos. Todos fazem parte do humano que formamos.

Por isso, é preciso sermos conscientes das nossas ações mais corriqueiras. Pois é nelas que construímos, ou desfazemos, nossas vidas. É nelas que aproveitamos o tempo que temos ou o jogamos fora.

É nos momentos mais esquecidos que analisamos, vivemos, aproveitamos, construímos, observamos, destruímos, escolhemos (sem perceber), evoluímos (se é que isso existe), progredimos (outro termo duvidoso), regredimos (que maniqueísmo é esse?) e criamos/desenvolvemos a vida que vive(re)mos.

Não joguemos fora o nosso tempo sendo reativos ou passivos no passar da foice sobre o trigo, pois quando chegarmos em certa altura será nossa vez de ser ceifados.

Olhemos para o que fazemos não com criticismo científico, mas com criticismo de valor. É válido o que eu estou fazendo com a vida que tenho? E desvinculemos disso o que os outros - ou as estruturas socioeconômicas - consideram válido.

O que é válido, é válido para você.

Faça o que queres há de ser tudo da lei, porém primeiramente aprenda o que realmente queres;

domingo, 15 de outubro de 2023

Impaciência

Refém da cachoeira infame de estímulos, distrações, interesses, trivialidades, informações incompletas - e completas, embora raramente. Como que por uma escada espiral, mergulhei passo-a-passo neste funil psicológico; intencionalmente ou não, o caos e a decadência inevitáveis deste sistema monopólico fazem com que o fantasioso e o escapismo se tornem mais e mais interessantes. Buscando fugir da persistência da inabilidade de mudança, inabilidade esta exclusiva da maioria insignificante que se coloca à mercê de uns poucos, damos nossas vidas ao efetivo nada.

Desses estímulos nada provém, a não ser o vício da impaciência, do movimento falso porém continuo e da velocidade elevada que nos impede de parar por sequer um minuto para observar, ler, escrever, criar, nos manifestarmos - e esta lhes é a mais lucrativa - e sermos nós mesmos. Não decidem o que falamos ou fazemos, mas decidem sobre o que falamos e sobre o que fazemos. Assim como também decidem o que não fazemos.

Para mim, se tornou mais difícil escrever de forma não-reflexiva. Como evidente neste exato momento de minha escrita, só tenho escrito sobre o que me passa no momento. Longe está a criatividade e a exploração do inesperado e da invenção. Ainda é possível pescá-las, porém a linha deve ser longa e a pesca deve ser profunda, ambos requerendo uma paciência cada vez mais escassa e reduzida.

Reversível? Sim, assim como qualquer outro vício. Porém, sua facilidade e impensabilidade em sua condução o tornam cada vez mais sádico, pois é um vício que nada custo e que se encrusta em nossa realidade assim como o ar que absorvemos em nossos pulmões.

Longínquos estão os dias em que me bastava observar as chamas enquanto sons feéricos dançavam no ar em torno de mim. Longínquos estão os dias de meditação, criação, solitude, solicitude, honra, devoção, unicidade e mitologias individuais.

Longínquos para trás, em direção ao passado, e provavelmente longínquos para frente, em direção ao futuro. Porém, assim como a ametista presa dentro do geodo, é possível quebrá-lo e revelar, em nova forma espatifado porém talvez mais repleto de nuances e variações.

Muito me apetece a probabilidade e a responsabilidade pessoais de dar sequência a estes projetos de pensamentos, mas obviamente não é algo que me parece fácil. Principalmente se levarmos em consideração a necessidade de fazê-lo dia após dia, de forma totalmente consciente.

Porém, é isso que nos faz tão diferentes das demais espécies. A consciência com a qual realizamos nossas ações. Não devo deixar que esta também se esvaia, mas sim utilizá-la como o antigo martelo que eu jurei que utilizaria para arrebatar o metal da minha vida, porém agora para fender a rocha em que o cristal do verdadeiro valor da minha, enquanto minha, existência se encontra aprisionado

Fonte: https://br.pinterest.com/pin/672232681898725326/


quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Meditações

De que me serve a dor e o sofrimento causados por algo que foi produzido por mim e que estes não podem mudar? Seria vantajoso senti-los para impedir que este algo aconteça novamente no futuro?

Mas não é esta a origem das consequências dos traumas, que nos comandam de forma irracional por reverberarem acontecimentos do passado assim como uma corda não tocada vibra ao sentir a frequência com a qual que foi retesada na vibração de outra corda?

Não sabia eu, naqueles momentos passados, de forma racional, que aquelas atitudes me trariam sofrimento naquele presente e no atual futuro? E mesmo assim agi da forma de agi.

Não seria mais prudente agir de acordo com a minha racionalidade da próxima (ou das próximas) vez ao invés de buscar um mecanismo - ou falta de mecanismo - que me evite sofrer?

Seria esta uma nova tentativa de atribuir responsabilidade a um meio externo, ou falta de responsabilidade a um meio interno?

Por fim, deixar de sofrer pelo que já vem sendo sofrido há muito e pensar em agir de forma a enfrentar as consequências me parece mais produtivo.

As dores do corpo são inevitáveis, porém as da mente merecem certo controle - ou pelo menos tentativa de.

sábado, 7 de outubro de 2023

Frágil Humanidade

 

descansem em paz todos os que já foram e todos os que ficam, pois esta falta de paz é só mais um resultado de nossas fragilidades

segunda-feira, 4 de julho de 2022

Precisar querer

Desde tempos primordiais, a destruição do homem pelo homem - de forma individual, pessoal ou coletiva - se resume em dois fatores: a necessidade e o desejo. A falta da primeira nos desespera por nos aproximar do nosso encontro inevitável com a nossa última visita, aquela que com a foice um dia nos despedaçará. Já a falta do segundo nos desaquieta por nos convencer de que, quando nos encontrarmos com tal visita, não teremos vivido o que poderíamos viver. Não teremos cumprido o nosso potencial e teremos jogado nosso tempo fora quando na realidade poderíamos ter sido plenos, melhores, mais alegres, mais cheios, mais "completos".

A necessidade é essencial em essência, pois nos liga à sobrevivência.

Já o desejo, o querer, possui garra tão poderosa que se torna irracional e absoluto, se torna um necessitar querer, algo que não é necessário mas que necessariamente toma todas as horas do nosso dia e que invade nossos pensamentos e polui, estraga, aquilo que outrora nos fazia contentes e alegres e completos. Não queremos o que queremos. Queremos querer o que queremos.

O querer é um vício. Nunca satisfeito, sempre se renova e cada vez mais forte. Conforme te puxa com suas garras e recebe ainda assim o sustento que te pede, percebe sua própria força e as torna maiores e mais afiadas.

Lutar contra o desejo constante é solitário, mas essa solidão passa. Tanto quanto sair da multidão e mergulhar em si mesmo é solitário. Parece criar um vazio, mas esse vazio repentino deve ser preenchido consigo mesmo. E, assim como este último, é só abrindo mão do que te prende em suas garras que é possível perceber que a vida e o mundo são infinitos em possibilidades e que o primeiro passo para seguir em frente é aceitar onde está e seguir com ambição, usando-a como ferramenta ao invés de se tornar você mesmo ferramenta do seu desejo.

Desire by Olivia Steele (2018)


quarta-feira, 21 de julho de 2021

Paralisia por análise

A falta de ação não existe. Não agir é decidir pelo ato de não fazer nada. Não fazer é tão consequente quanto fazer. Paralisia por análise extrema. Na verdade, uma paralisação por medo. Medo do imprevisto, do incerto, do erro e de lidar com consequências para as quais não se considera preparado ou com consequências inesperadas que podem ser piores do que imagina.
Nunca mais.
Não fazer muitas vezes é pior do que fazer, mesmo em suas consequências. Além de não trazer entropia para a situação, ou seja, de não levá-la a lugar algum e não resolver aquilo que está sendo analisado, ainda causa dúvida, insegurança, o arrependimento de não ter agarrado o que lhe era importante e a agonia de poder ter feito algo e ter deixado o medo, e não você, dominar a sua vida.
Pense em suas ações. As analise. Mas não deixe que esse processo impeça o caminhar da sua vida. O tempo passa e há aqueles que vivem 1000 anos em 60 e aqueles que vivem 5 em 100. Saiba quem você gostaria de ser e não se perca no caminho.





quarta-feira, 7 de outubro de 2020

O Martelo e a Bigorna que formarão o meu destino

Falha. Arrependimento. Infelicidade. Ódio próprio. O ciclo se mantém há gerações, estas sem vontade e sem coragem para mudar o que lhes foi apresentado e não foi combatido. O caminho lhes foi traçado pela causalidade e não pela volúpia de construir a si mesmo, ou de chegar a um objetivo que valesse a pena.

O medo era grande demais.

Eu serei o martelo e a bigorna que estraçalharão a sandice desse ciclo. Não mais por falta de tentar, não mais por falta de força de vontade, não mais por covardia e não mais por comodismo morrerão os sonhos e os objetivos de uma pessoa. Não mais por falta de movimento a vida será abandonada em favor da existência. Os erros e derrotas serão sempre presentes, mas não dominarão o panorama da pangeia de possibilidades e oportunidades que se estendem neste mundo interno que se projeta em minha mente.

Nunca mais quero me associar seja ao fracasso ou à perdição de meus predecessores. Nossas vidas são eternas na História mas únicas enquanto ainda em seu processo. Que se eternizem também vitórias e não só perdas. Que os exemplos sejam dignos de alegria e não nefastos. Que a influência traga progressão e não atraso. Se arrependa, mas não morra no passado nem mate o futuro enquanto estrangula o presente a todo momento em que seus olhos estiverem abertos.

Torne-se quem você sempre quis ser e subtraia do seu vocabulário intrínseco as palavras viciadas e os feitios que levaram seus ancestrais à falha.

Liberte-se dessa prisão criada sobre ti com engenharia de outrem mas usando as tuas próprias mãos. Quebre o ciclo. Não esmague-o, mas o estilhace. Ele não fará parte da sua vida nem das vidas que seguirão. Mate o que te mata. A força dele está na sua derrota.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

O fogo negro de Qliphoth, sempre-consumindo para a árvore da vida, a mim corresponde ao fogo que consome meu ser mas que se manifesta limitador e criador. Uma chama cega que quanto mais cria mais destrói. Um manifesto abominável e atormentador que acelera a perdição e toma conta com angústia, desespero e desafio, invocando ódio, dúvida, apreensão e fúria. Porém, essa chama criativa é uma mera casca destrutiva que ao queimar o último galho da existência trará o nada que restará e levará para eterna Sitra Achra, em busca do Vazio inconsciente onde tudo é possível, imanente, infinitamente profundo e ao mesmo tempo raso e inerte.

É no ápice da existência que a ingenuidade abriga a destruição interna. É na proximidade com a luz criativa que a ignorância dá espaço para a negritude da fronteira abismal, e não quando se está a procura da mesma. Eterno cabo-de-guerra onde o Oceano perene é o único resultado mas onde a permanência do tempo é o prêmio buscado por aquele que possui esperança e onde a confusão incandescente é a porta de entrada para o túnel vertiginoso da Escuridão Primordial.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Sad But True

A vida é algo engraçado. Visamos coisas por todo o decorrer dela, e quando algo parece não funcionar conforme idealizamos, somos tomados pela tristeza. Mas nos esquecemos que a vida não é para ser idealizada, nosso futuro não é para ser previsto. O acaso vai nos acometer, e vai nos proteger. Podemos tentar fazer escolhas para o acaso. Mas não decidimos qual das opções vai ser seguida. Tudo aquilo que nos foi imposto jamais vai ser tão bom quanto pareceu um dia ser.