terça-feira, 19 de maio de 2026

Eu não aceito

 Eu não aceito que quase 10 anos já se passaram. Que o mundo já não é mais o mesmo. Que eu já não sou mais aquela pessoa. Que aquelas pessoas, de forma bastante literal muitas vezes, não estão mais lá. Que aquela vida não mais existe. Que não há retorno. E que eu não pertenço mais àquele lugar, embora talvez também ainda não aceite pertencer a este.

Mas não é porque eu não quero. Não é falta de vontade. É algo muito mais simples. Eu simplesmente não consigo. Talvez porque mudei para algo que sempre abominava, talvez porque meu plano sempre foi retornar, ou seguir em frente para outros lugares, antagonizando o que realmente aconteceu.

Talvez a desesperança de um futuro planejado me faz buscar conforto em um passado sem limites, sem bloqueios, sem muralhas, cheio de oportunidades de oportunidades.

Eu quero aceitar, seguir em frente, esquecer, olhar para o improvável, impensado, novo... Para aquilo que se apresenta diante de mim, mesmo que longínquo, escondido, distante, sob as sombras ou as árvores ou atrás das portas e janelas e paredes. Mas tudo que é futuro me parece tão vazio e tão inexistente. Ideias e vontades que nunca se concretiza(rão)m. Por mais que eu saiba que não é verdadeiro, esse sentimento é real. E me atazana e me espaventa para o colo do passado, da nostalgia, da vontade de pretérito no presente, da vontade de ter ficado, da vontade de sair mas ao mesmo tempo de não saber para onde, pois o que almejo não existe. Pois não almejo só o lugar, só o espaço, mas também o tempo. Almejo a vontade, a energia, a importância, a potência, a maleabilidade, a alegria, a paz de espírito, a camaradagem, o pertencimento.

Eu quero aceitar. Eu sei que devo, eu sei que preciso e eu sei que quero. Mas eu me preparei para isso. Para algo que não existe e para negar algo "que não deveria existir".

Mas eu não aceito.

Foda-se. Sei lá.