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terça-feira, 17 de março de 2026

Sombras na Floresta das Sombras

 Nas minhas andanças, me deparo com uma singela porta em minha frente. Uma porta sem características. Um portal, é possível. Um leve buraco em meio a uma parede infinitamente enorme e da mais profunda escuridão. Olhando para os lados, um sem-fim de cor preta, ausente de luz. Olhando para frente, aquela passagem de luz ofuscante atravessando sua mão gelada e convidativa.

-Então, desta vez, será preciso sair antes de entrar novamente. Viver antes de reviver. Experimentar antes de processar.

Atravessando a porta, o destino se esparramava como um tapete: uma vastidão que subia, em certa inclinação, em direção a algo. Subindo-a, de maneira cansável mas persistente, se tornava impossível não questionar o objetivo daquela caminhada. Onde levaria? Por onde passaria? Estaria eu meramente sendo expulso do meu próprio ser?

Foi quando, de forma bastante repentina, talvez pela característica introspectiva da visão dos meus devaneios, me encontrei próximo a uma floresta de sombras: árvores efetivamente iguais, relativamente bem espaçadas, formadas completamente por sombras. Seu contorno me era óbvio, porém seu conteúdo se fazia suspeito e suas cores profundamente obtusas ao mesmo tempo aglutinavam com suas próprias sombras e contrastavam com a clareza quase branca do chão que era o alicerce do meu caminhar. Ao chegar em sua fronte, o caminho continuou o mesmo - como que se alguém houvesse predeterminado esta passagem, independente do que houvesse no entorno de mim mesmo. Se de olhos fechados eu estivesse, nada haveria mudado; a não ser o vento do descampado, agora trocado pelo silêncio de uma floresta morta.

Após horas de mesmice, de caminhada, de dúvidas, de lampejos autóctones e de cansaço, cansaço este derivado da intolerante caminhada incerta, fui recebido pelo primeiro semblante de mudança: uma sombra que se moveu de dentro do tronco de uma daquelas árvores malditas. Como se tremesse, uma sombra se despregou do cerne de onde habitava e decolou, com asas horrendas, em direção ao céu, voando primeiramente em círculos misteriosos, fazendo presente a sua existência como se quisesse mostrar que ali estava, ali viera, e como se ousasse me adiantar que, até o fim daquele capítulo, também eu estaria serpenteando pelo espaço. Enquanto observava o alto, sem embora pausar por um segundo a minha marcha, me dei conta de que outras daquelas criaturas, sombrias e de corpos aviformes, com olhos amarelados como lâmpadas de ruas antigas, faziam presença da mesma forma que a primeira, aos poucos me cercando como o faria uma matilha de hienas, prontas para a emboscada.

Formando um enorme círculo, uma ciranda horrível de sombras pontilhadas de dourado veloz, começaram a se abaixar até atingir a minha altura, então voltando-se contra a minha existência - atacando com a voracidade de predadores noturnos famintos por sangue que para eles era novo. Naquele momento praguejei, me cobri com minhas longas vestes e acelerei meu passo, brandindo o que podia contra aquelas pestes: braços, galhos, palavras de ordem, maldições, súplicas, revoltas.

Ao levantar a cabeça, a floresta a minha frente estava em chamas. Labaredas cobriam sua vastidão, ainda assim incapazes de clarear as feições das árvores ou das criaturas, da mesma forma que aquela porta era incapaz de clarear as paredes de vazio ancestral. Um a um, dominei aqueles demônios com meu desespero às vezes caótico, porém sempre ordenado. Contradição bem-vinda. Porém, ao afogar o último deles em determinação, à frente agora se encontrava um humanoide, fruto das criaturas abissais que me tomaram de assalto, como que um portão fechado que interrompia qualquer peregrinação. Porém, o obstáculo maior estava atrás dele: um penhasco cujo tamanho e cuja inclinação me eram invisíveis. Duas pedras para um único cajado.

O medo tomou conta do meu ser. Uma questão se tornou evidente: Me entregar ao retorno ao passado sem destino, às chamas, aos corvos malditos, ou enfrentar o monstro adiante, que ao invés de uma montanha de ouro guardava a chave da incerteza do amanhã?

 Por falta de escolha e, admito, por curiosidade, desta vez mantive os olhos no caminho. Acelerei minhas pernas com todas as forças que ainda podiam restavam e, num último segundo, mirei no centro da besta e a abracei enquanto lançava-nos em direção ao abismo.

Ao desconhecido.

Levitamos no ar. Foi como se, por quase-intermináveis segundos, voássemos em direção ao nada. Porém, olhando a massacrante escarpa que marcava a próxima fase daquele capítulo da minha viagem, apoiei sobre a criatura aterrorizante, que se debatia em vão. Ao cair, sua estrutura tenebrosa amorteceu a queda e, a cada batida contra as duras pedras, foi deixando sua umbra esfarelada pela encosta enquanto se desfazia. Após o fim de sua vida, conforme eu deslizava e capotava pelo terreno íngreme, em instantes percebi estar próximo a uma praia, de onde era possível contemplar um navio atracado. Meu próximo destino, imaginei.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Castelo amaldiçoado

 Se você constrói seu castelo sobre um mar de esterco, ele sempre se afundará e sempre estará manchado de esterco. Você pode construir altas torres, criar bandeiras esvoaçantes, entradas douradas, tronos suntuosos. Tudo tomará um tom marrom, esverdeado, amarelo... todos variantes do mesmo esterco sobre o qual sua fundação repousa. Portas de madeira entalhada, roupas trabalhadas, festas planejadas... tudo será parte do diamante que repousa sobre o mar do lamaçal onde você construiu sua moradia.

Faça o que fizer, melhore o que quiser, vença todas as lutas, progrida e ordene; se você o fizer sobre uma estrutura de contradição, insatisfação, rejeição e sentimento de não-pertencimento, você terá construído a sua maior obra - você mesmo e sua vida - sobre um terreno corrompedor de qualquer vitória ou alegria que pudesse alcançar com suas ações. O miasma do desgosto penetrará suas janelas, o esterco e o lamaçal cobrirão suas pernas e a instabilidade vai ruir suas paredes, desmoronando tudo sobre sua cabeça.

segunda-feira, 23 de junho de 2025

Infinita Potencialidade

 Após dias, semanas (meses?) de caminhada incessante sustentada pelo meu próprio eu exterior, avistei uma fonte de luz. Uma luz pálida, efervescente, branca como uma névoa de manhã gelada de inverno que insiste em existir enquanto o calor domina o seu entorno. Me aproximando, percebi que se tratava de uma espécie de lago ou represa - que eu teria que atravessar.

Para a minha felicidade, às margens se encontrava um barco e ao barco se encontrava um aparente barqueiro. Seria ele o Caronte da minha viagem? O destino decidiria. A figura vestia trajes negros que cobriam todo seu corpo, exceto pelas mãos esqueléticas, e um capuz que fazia parte de todo o restante e ocultava a maior parte de sua face. Por mais que não possuísse pele no rosto, parecia ser bastante expressivo e, ao me aproximar, ele estendeu uma mão aberta com a palma para cima enquanto a outra se apoiava em o que parecia ser um longo remo de madeira.

"Duas moedas, por favor."

"Não tenho."

"Malditos despreparados. Não pensam em mais nada. Entra aí."

E, apoiando na lateral da embarcação, um barco longo de madeira preta, aparentemente enegrecida pelo tempo, saltei para dentro mas preferi me manter de pé para poder enxergar melhor enquanto questionava meu célebre anfitrião ao passo que ele remava tranquilamente em direção ao que parecia ser o centro daquele corpo d'água.

"Que lugar é este?"

"É o Lago da Infinita Potencialidade."

"E ele é infinito mesmo?"

"Não, mas para quem está no meio dele parece. De lá não dá para ver as bordas."

"E é pra lá que estamos indo?"

"Não sei. Você me diz. O que está fazendo aqui que não se preparou o suficiente nem mesmo para encontrar o barqueiro dos mortos?"

"Eu não sabia que minha jornada pelo âmago da existência me levaria à Morte de forma tão literal. Tenho matado, esmagado, aniquilado, ou meramente libertado, minhas pragas e minhas bestas mais antigas."

"Parece mais uma jornada através da Morte de si mesmo."

"Sim, e sou eu o único capaz de fazê-lo. Embora precise da ajuda de outros."

"Que, queira ou não, também são meras pragas e bestas de si mesmo."

"Eu não os chamaria assim."

Depois disso, e de um aparente suspiro de contentamento do barqueiro, continuamos navegando por algum tempo até avistar ao longe uma enorme e fina estrutura. Parecida com um poste acinzentado, se erguia até onde era possível enxergar, brotando de uma aparente ilha, muito diminuta, no que cogitei ser o centro daquele lago. Conforme tal pilar se aproximado, coloquei a mão direita sobre a sobrancelha como se ajudasse a entender melhor o que estava acontecendo. Aos poucos pude ver que havia uma figura inchada, desesperada, se agarrando ao pilar enquanto escorregava no que parecia ser uma espécie de areia movediça que tentava levá-la para dentro da água. E, observando mais de perto, ficou claro que quanto mais se esfregava no poste mais areia era desprendida e jogada aos seus pés, mantendo aquele ciclo sisífico que aparentava durar muito tempo.

Quanta energia gasta para manter aquele cenário. Quanto esforço para não chegar a lugar algum.

"Sabe, esse lago não foi sempre tão grande. Ele começou pequeno, do tamanho de uma poça." - Disse o capitão, de maneira certeira como aqueles que iniciam a contagem de uma História de eras passadas. "Porém, quanto mais ele evitou atravessá-lo, quanto mais ele se agarrou a essa coluna, mais ele aumentou - e junto aumentou o seu corpo, estufado pela própria água e pela própria areia que caem do pilar. E, quanto mais eles aumentaram, maior se tornou o risco de atravessá-lo."

Eu sabia o motivo daquilo. A promessa de Infinita Potencialidade, o Pilar da execução tardia, o porto seguro da fantasia da escolha. Quanto mais se agarra a esse poder, à sensação da possibilidade de escolha, à magnitude de poder ser aquilo que quiser, mais o tempo passa. E quanto mais eles passa, mais pesados ficam os grilhões e maior fica o medo de, ao decidir uma direção, sentir que é tarde demais para voltar. Ou que a costa fica tão longe que nunca chegará do outro lado. Ou que, depois que chegar, todas as outras possibilidades terão ficado para trás.

Como se não houvesse um mundo inteiro além da costa, por mais que obscurecido ao contrário das águas ofuscantes daquele Lago maldito. E como se, ao se agarrar às possibilidades, não estivesse evitando a conclusão de todas elas. Ao invés de se tornar forte, seja onde for, e realizar seu destino, seja aquele que escolher, morre a cada dia na Ilha do Desespero e não se torna nada.

"O que acredita que é a sua força, que o motiva a se agarrar, na verdade só o torna o mais fraco de todos. Olhando do lado de fora, a grandeza desse lago é um testemunho de sua fragilidade."

"Está na hora." - Retrucou o guia.

E, chegando o mais perto de poderíamos, coloquei um pé naquela areia movediça enquanto me mantinha firme com o outro no barco e, estendendo a Mão Esquerda, aquela que representa a escuridão do desconhecido, plantei a sua palma nas costas daquela criatura que se movia como uma minhoca fora da terra e uma sombra se espalhou sobre ela. Agora que seus motivos eram conhecidos, sua existência não fazia mais sentido. Sua jaula foi quebrada. Seu espírito de luta, ignóbil, foi massacrado. Seu dispendioso sofrimento acelerado foi despedaçado. Sua existência derreteu e se tornou parte do lago, ironicamente sendo desengolido pelas águas e se tornando fumaça - livre de qualquer conexão com aquela infinidade de possibilidades.

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Relações interpessoais

 É sempre tão difícil. Por mais que eu conheça a teoria, as ideias, as palavras, a ciência, as variáveis e até os personagens, é sempre tão difícil. Às vezes não parece, mas parece que quase sempre é. Pelo menos quando falamos de forma individual e extensa.

O passado é estranho. Refletindo, agora, parece-me que nem sempre foi. Ou nem com todo mundo. Mas há categorias de pessoas com as quais sempre é. Seriam aqueles que mais admiro(ei)? Seriam aquelas mais enigmáticas? Seriam aquelas onde sinto que tenho mais a perder em forma de potencial (essa ideia que ainda se agarra como um parasita)?

Às vezes penso que isto é algo exclusivo, mas talvez não seja. Porém, não é tão comum porque é algo sempre percebido. Vai saber. Hiperanálise sempre nos decepciona e martiriza, nesses momentos.

Vergonha acumulada às vezes se transforma em compaixão pelo diferente, pelo doente, pelo transtornado. Mas não será isto um mero mecanismo de defesa? Uma forma de procurar um culpado externo? Uma parte da eterna fuga da responsabilidade? Não seria isto mais um sintoma do próprio problema? Se sim, está aí o próprio Ouroboros.

De qualquer forma, é tão difícil de lidar. Sempre foi e às vezes parece que sempre será. Medo, falta de identificação. Expectativas boas e ruins. Paralisia.

Ah, se eu soubesse. Mas é aí que mora a graça de vida. Quase nunca se sabe.

E se, sabendo, quase sempre surge um arrependimento questionável, por que não tentar sem saber?

Sei lá. É tão difícil.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Você vem

 Você vem rastejando de forma ritmada, ululante, fluida. Como uma serpente no escuro, sem começo e sem fim. Somente corpo. Sua aparência é enorme, como o tronco de uma árvore centenária que se move em homogeneidade e sufoca a mente com uma tamanha imposição trévida em meio ao corredor assombroso e de certa forma indefinido.

A luz é tão pouco que sinto como se estivesse observando uma foto; que se movimenta em tal, singular, destreza, que me confunde como que uma ilusão de ótica.

Ao ponto que percebo seus avanços, já é tarde demais. O peso sufoca qualquer semblante de esperança; e a fulgura de um campo amplo, ou de uma estrada infinita, se fecham em um instante. Instante este em que somos consumidos por uma prisão férrea e orgânica, acachapante e impositiva mas de forma além da compreensão ou da razão sórdida. É meramente intuitiva, parte essencial da humanidade. Um meio de defesa. Uma jaula não para me prender, mas para me segurar.

"Suas raízes se desprendem do chão conforme são macetadas e avacalhadas, avassaladas pelos dias, meses, anos e acontecimentos. Aqui eu te prendo, te enjaulo, te incorporo, te amasso e te assento novamente. Uma planta transplantada é preciso sê-la à força. Se o solo em que está é pobre, ou se passam por ela e a atacam a ponto de colocarem em risco a sua vida, é mais que necessário arrastá-la para onde esteja a salvo. E dali não tirá-la nem deixá-la se arrancar. É ali que ela se fincará novamente na fundação da Terra e apontará, ao mesmo passo, para os Céus e para os Infernos. Assim como em cima, também embaixo. Um sozinho é a morte. Os dois juntos, e tem uma vida."

De soslaio percebo, da única forma que consigo observar enquanto me afundo e me dou à força, e não à luz, que o movimento continua enquanto eu me absorvo em minha própria existência para mais uma vez me aterrar nas bases desse monumento deificante. Demiurgo, eu sou tanto aquele que é pisado e deformado quanto aquele que pisa e deforma. Sob meus próprios pés, sob meu corpo de serpente, eu me formo como avatar de mim mesmo.

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Caos Inominável

Quando eu primeiro os encontrei, os temi. Criaturas altas, de formas instáveis, movimentos lentos e incertos, cores artificiais para olhos terrenos. Sua presença não devia ser aceita pelas leis da natureza e sua presença naquele espaço não fazia nenhum sentido.

De onde vieram? Quais eram os seus propósitos? No que pensavam? Por que não se locomoviam, de forma a sair dali? Estariam inertes? Ou talvez esperando o momento exato de agir? Ou talvez, de forma ainda mais inominável, já estariam agindo em passos que minha mente simplesmente não conseguia compreender?

Sua forma gelatinosa, porém densa, às vezes parecia escorrer porém sempre retornando ao formato original. Mesmo possuindo braços, pernas e cabeça - embora sem um pescoço, pois não havia feições e a ligação ao corpo era direta - e possuindo cada um uma fenda no lugar do rosto, estas facilmente uma das suas partes mais temíveis pois pareciam projetar de forma interna uma visão do vazio, não utilizavam sua constituição para nada que me fosse reconhecível. Ou, para maiores efeitos, para nada.

Foi quando um dia, após já ter entrado diversas outras vezes, e em diversas outras datas, naquele cômodo - na verdade aquele cômodo era tudo o que remanescia das ruínas de uma velha casa de tijolos na zona rural, esquecida para o tempo e para a natureza pelo ritmo com o qual a urbanização havia sugado as pessoas para as cidades, de forma inevitável, e abolido a exploração e o conhecimento do mundo externo - que estava abandonado e caindo aos pedaços, com vigas de madeira desabadas, pedaços de céu entrando pelos buracos do antigo telhado em tamanhos maiores que os corpos de alguma pessoas, portas caídas ou decompostas e janelas inexistentes, que eu os vi novamente porém desta vez de forma surpreendente. Em qualquer outra situação, com outras companhias, aquilo não me surpreenderia, mas estavam juntos em um canto do cômodo, praticamente tocando ombros, quando um deles, aquele mais distante, de fato rachou como que pela força do pensamento a parte baixa da sua cabeça  e dali fez-se um semblante de boca (se é que pode-se chamar um abismo existencial sem feições determinadas ou quaisquer outros detalhes de boca) e começou a proferir palavras que falavam das coisas mais diversas. Em meu receio, senti como se meu coração e meu cérebro se partissem em uníssono à abertura de tal fissura incompreensível, mas, assim que comecei a ouvir, parte do medo foi substituído quase que de maneira instantânea por curiosidade e aproximação, guiados por aquilo que era dito.

Por muitas vezes, o que os dois seres improváveis diziam (e aqui julgo que um falava pelos dois (se é que eram um, dois, centenas ou milhares ou incontáveis)) era frustrantemente ininteligível. Porém, às vezes me falavam de coisas tão claras quanto a luz do dia que ainda permeava pelas falhas decadentes daquela construção.

Às vezes falavam da minha vida, como se soubessem até mais do que eu, e me ofereciam frases inesperadamente proféticas. Às vezes, soavam como um oráculo cabalístico que me dizia que meu destino estava próximo, porém que as peças ainda não estavam prontas para o encaixe.

Seja como for, a partir do momento que me fizeram refletir e que começaram a me guiar, mesmo de forma inesperada e talvez não tão intencional, exitosa ou direta, a sua fala incólume afastou os últimos semblantes de medo e de curiosidade sobrenatural. Aos poucos entendi que sua origem, seu conceito, seus planos e suas maquinações nunca seriam realmente compreensíveis para mim. O que me importava era aquilo que eu era capaz de assimilar e identificar. Por mais que pudessem ser deuses, demônios infernais, ou mesmo criaturas caóticas intangíveis viajantes de outros planos, estes tão alienígenas para a humanidade quanto o conceito de física quântica para uma folha de papel morta, eu era o receptor de seus conhecimentos. Por mais que não me respondessem, nem sequer demonstrassem me ouvir por mais que eu tentasse, comunicavam o que queriam e para mim aquilo era o suficiente.

O Caos é, obviamente, algo inesperado. Ou você enlouquece tentando entendê-lo por completo, ou assimila o que lhe é valioso e compreende que ele é composto em sua maior parte pelo que há de mais incompreensível, aceitando o seu destino enquanto mero receptor daquilo que o seu limite humano permite ao seu cérebro absorver e incorporar.

sexta-feira, 10 de maio de 2024

Jogo de Palavras

Conceitos me são caros. Sempre gostei de entender os significados das coisas. Por que? Por qual razão? Por qual motivo? Qual o significado? Onde está o sentido?

Racionalizar, analisar, entrelaçar, relacionar, enteiar: alguns de meus passatempos favoritos. Para mim, ligar coisas através de seus sentidos é algo que me é natural pois é algo que provoca uma condição exploratória: uma abertura de novas portas, que talvez nem existissem. A descoberta do novo, ou do escondido.

E é daí que vem o jogo de palavras. Para jogar, é necessário entender as regras. Os significados (absolutos e definidos ou prováveis) de cada peça. E é aí que entendemos que as jogadas são infinitas. É aqui que eu jogo e brinco com elas. No meu domínio, o sentido me cabe. Porém, quando entrar nele, sinta-se livre para aproveitar os frutos das árvores que mais lhe aprazerem. Traga suas próprias peças e as una às minhas, as compare, as aproveite e as jogue contra as que aqui lanço. Lutemos neste campo de batalha onde todos que jogam saem ganhando.

Redação, dissertação, análise, tese, antítese, síntese, poema, prosa, narrativa, fato, estilo, cadência, tratado, manifesto, e todas as outras infinitudes de possibilidades. Tanto faz. Exercitemos nossa capacidade de distribuir conceitos e seus sentidos. Se todo problema é um problema linguístico, comecemos com as perguntas mas introduzamos as respostas enquanto aquelas ainda estão sendo feitas. Não deixemos para o casa das letras a soberania sobre elas. As portas nunca estiveram fechadas pois somos feitos de significados. O mundo só o é enquanto o avaliamos. Todo julgamento é construtor, mesmo que for construtor de destruição.

O faça não por inspiração, mas sim por necessidade de alimentar a chama do questionamento infinito. Do exercício interminável da abstração.

Vontade e Potência

 Vontade de Potência, resumida pela busca pela Vontade de Potência.

O círculo infinito da busca não do objeto, ou do objetivo, mas da realização da sua força imanente e potencial. É aí que reside o poder da ação. Não no resultado, mas na ação em si. O poder fazer é o que sacia a vontade de fazer. A ação legitima a crença na força individual; na manifestação de uma existência que se mostra válida, forte e suprema dentro do que lhe é proposta por si mesma.

É isto que engrandece o indivíduo. O que é gerado por si próprio. As opiniões e vontades alheias não mais importam. Perante a força da Vontade de Potência, tudo cai ao chão. E é sobre os escombros de possíveis muros que ela se engrandece. É daí que sai seu sustento; é aí que ela se alimenta.

A proposta da existência do inalcançável é dialética, pois ao mesmo tempo que pode quebrar a Força interna, se rígida o bastante para segurá-la, pode a maximizar, mediante as possibilidades daquele momento, com a grandeza do estrondo de sua queda.

É a derrubada dos muros - internos e externos - que projeta para o mundo quaisquer movimentos. É o desafio de fogo - o teste final - que pressupõe a subida (ou não) para os salões da magnitude humana. Porém, após escalá-los, não mais se fazem suficientes. É preciso alcançar os deuses, os titãs, o universo.

Suficiente não é existente. É o refúgio dos fracos e medíocres. É na sede, na volúpia, na busca pelo mais, que reside a Chama da Vida. O Impulso de Seguir em Frente. Vontade de Potência.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

Português abaixo

-I'm sorry.

I'm really, really sorry.

I didn't want to be like this but, everytime I see your contagious happiness it makes me hate you even more.

You make me feel it, like there's a joy to be had while living. Like life isn't even that bad after all. It seems worth living and smiling about it.

But this only lasts while we're together. After we go our own ways, it is all gone. Hit by the truth like a hammer, the claws of the tentacles of depression grab me and remind me that the world has no magic in it at all. It is all particles, marching towards either oblivion or dissolution. Nothing has sense, meaning or beauty. Happiness is but a hypothetical concept.

And, for that, you will now die!

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-Eu sinto muito.

Eu sinto muito, muito mesmo.

Eu não queria ser assim mas, toda vez que eu vejo sua felicidade contagiosa ela me obriga a te odiar ainda mais.

Você me faz senti-la, como se houvesse alegria para sentir enquanto vivemos. Como se a vida não fosse tão ruim afinal de contas. Parece valer a pena viver e ainda com um sorriso.

Mas isto só dura enquanto estamos juntos. Depois que vamos cada um para um lado, tudo se vai. Atingido pela verdade como uma marreta, as garras dos tentáculos da depressão me agarram e me lembram que o mundo não tem nada de mágico. Tudo são partículas, marchando rumo ao esquecimento ou à dissolução. Nada tem razão, significado ou beleza. Felicidade não é nada além de um conceito hipotético. 

E, por isso, agora você vai morrer!

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

Descontinuidade

 Em meio a tantos interesses, identidades, características e personalidades, sempre tive um conflito. Uma tribulação, caso queira.

Dificilmente levo aquilo que me interesso a um nível de seriedade quase absoluto, aquele em que se aprende além da fase da lua-de-mel, aquele em que vejo as pessoas se dedicando dias a fio e aperfeiçoando sua obsessão como se fosse a lâmina de uma faca passando por diversas gramaturas de abrasivos até adquirir um polimento tão fino que se torna indistinguível de um rio durante as neblinas da manhã. O esforço é tão grande, contínuo e prova penitente cabal da dedicação sem-fim que ele próprio desaparece, deixando uma perfeição técnica que reflete uma máscara desesforçadamente fácil. Se torna tão natural que podemos comparar a maestria técnica dessas pessoas focadas a um galho de árvore, enxertado em outra de forma que se torna parte desta e age como tal - compartilhando seiva e vida.

História, música, artes plásticas, design, dentre tantos outros, fazem parte da minha vida porém mais como uma compilação de artigos científicos do que como um livro completo. Por mais que os temas sejam diversos e alguns sejam mais longos e específicos que outros, todos se portam como uma apresentação introdutória.

"Antes saber um pouco de tudo do que muito de uma só coisa"

Lembro nitidamente do dia em que proferi esta frase, talvez pela primeira vez de muitas. E ela não só já me refletia na época como também me acompanha até hoje.

Sob Sol e sob luar, na calmaria e desespero, prometi a mim mesmo quebrar mais este molde. Porém se apresenta como um dos mais densos e mais poderosos. Até mesmo aqui, neste diário, a frequência infrequente se faz parte do problema. Saber que não estou sozinho é reconfortante, mas nada resolve.

Estar cercado daqueles com o mesmo problema só o transforma numa normalidade. É no diferente que se deve buscar a cura.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Estereótipos e contradições - Devaneios óbvios

Enquanto eu ouvia música hoje, me peguei refletindo sobre algumas coisas. Lá vai: 

Engraçado como, ao mesmo tempo em que tentamos nos afastar de estereótipos, são eles que regulam grande parte das nossas vidas - mesmo se estivermos cientes, e tentarmos agir de forma consciente, quanto a eles. São transformados através de uma lógica ferramental, em que cada categoria de pessoa possui uma utilidade, papel ou capacidade. É óbvio que isto vem de tempos imemoriais, em que estes papéis eram considerados (e muitas vezes realmente eram) essenciais para a sobrevivência de cada grupo, mas as consequências destas associações se estendem até hoje através ou dos papéis antigos ou de cargos novos, reforçados pelas ideias antigas.

Para esta análise, vou me deter aos estereótipos de gênero.

Para a lógica social atual as mulheres são vistas (dentre outras coisas) como detentoras da beleza, e está claro que isto permeia o seu dia-a-dia em sociedade de forma perene. Quando nós homens olhamos para as mulheres, é esperado pela norma social que vejamos nelas encanto, gentileza, suavidade, fluidez, graciosidade, entre tantos outros adjetivos que explicam o significado da palavra beleza. Por mais que em uma análise rasa isto possa parecer algo bom (principalmente se a pessoa lendo for homem), o problema está na precisão desta visão: é só isto que se vê.

Não se vê a arte, a inteligência, o esforço, as dificuldades, a velocidade, a sagacidade, a força, a resiliência, a criatividade, nem nenhum outro atributo. Não de forma desassociada do conceito do que é belo. Tudo está sempre ligado ao corpo, e mesmo quando as elogiamos pelo que são e fazem, quase sempre atrelamos tal admiração à estética pessoal do ser, quase que (quando não exatamente) como forma de cortejo. O foco está na perpetuação da espécie. Na reprodução e na valorização dos descendentes. Por isso, também, que seus pensamentos são muitas vezes descartados ou acachapados em detrimento de sua aparência. Esta última já basta e muitas vezes é a única característica desejada pelo outro lado da moeda.

Já nós, os homens, sofremos muito menos desse tipo de análise. Talvez por termos sido - e sermos até hoje - os detentores do maior poder sobre ela própria. Porém, não estamos imunes. Como é difícil olhar para si mesmo e perceber tais coisas, já aceito que minha análise aqui talvez seja mais equivocada do que no primeiro caso. Porém, é visível que o papel do homem recai sobre o conceito de força.

Não sempre a força simples, baseada em músculos ou quantidade de carga. Mas sim na capacidade percebida para a violência. Os homens quase sempre tiveram o papel de defender o grupo e de garantir que as fontes de sobrevivência seriam asseguradas para os tempos que virão, por quaisquer meios fossem necessários. Por isto, precisava ser capaz de, e estar preparado para a, violência.

Já nos dias atuais, estes dois casos se tornam uma espécie de profecia autorrealizável, cuja existência já é suficiente para garantir sua realização. Porque hoje, por mais que o homem não precise ser o defensor da capacidade de sobrevivência e a mulher não precise ser o molde das futuras gerações, há diversas pesquisas que apontam que as pessoas mais atraentes são mais bem-sucedidas. As mulheres não precisam ter filhos nem cuidar das casas, e os homens não precisam caçar nem lutar contra outros homens, porém ainda assim as mulheres consideradas mais "belas" e os homens mais "intimidadores" costumam ter a vantagem. Tanto no âmbito social, quanto no empresarial, quanto no amoroso. A companhia das pessoas consideradas como modelos sempre se faz mais aprazível e vantajosa.

Ou seja, por mais que os motivos atuais sejam outros, um pouco mais distantes de tempos antigos, os resultados ainda são semelhantes e os estereótipos ainda se mantém. Por mais que lutamos contra eles diariamente, é nos nossos instintos que muitas vezes as raízes dessas crenças estão afirmadas.

domingo, 15 de outubro de 2023

Impaciência

Refém da cachoeira infame de estímulos, distrações, interesses, trivialidades, informações incompletas - e completas, embora raramente. Como que por uma escada espiral, mergulhei passo-a-passo neste funil psicológico; intencionalmente ou não, o caos e a decadência inevitáveis deste sistema monopólico fazem com que o fantasioso e o escapismo se tornem mais e mais interessantes. Buscando fugir da persistência da inabilidade de mudança, inabilidade esta exclusiva da maioria insignificante que se coloca à mercê de uns poucos, damos nossas vidas ao efetivo nada.

Desses estímulos nada provém, a não ser o vício da impaciência, do movimento falso porém continuo e da velocidade elevada que nos impede de parar por sequer um minuto para observar, ler, escrever, criar, nos manifestarmos - e esta lhes é a mais lucrativa - e sermos nós mesmos. Não decidem o que falamos ou fazemos, mas decidem sobre o que falamos e sobre o que fazemos. Assim como também decidem o que não fazemos.

Para mim, se tornou mais difícil escrever de forma não-reflexiva. Como evidente neste exato momento de minha escrita, só tenho escrito sobre o que me passa no momento. Longe está a criatividade e a exploração do inesperado e da invenção. Ainda é possível pescá-las, porém a linha deve ser longa e a pesca deve ser profunda, ambos requerendo uma paciência cada vez mais escassa e reduzida.

Reversível? Sim, assim como qualquer outro vício. Porém, sua facilidade e impensabilidade em sua condução o tornam cada vez mais sádico, pois é um vício que nada custo e que se encrusta em nossa realidade assim como o ar que absorvemos em nossos pulmões.

Longínquos estão os dias em que me bastava observar as chamas enquanto sons feéricos dançavam no ar em torno de mim. Longínquos estão os dias de meditação, criação, solitude, solicitude, honra, devoção, unicidade e mitologias individuais.

Longínquos para trás, em direção ao passado, e provavelmente longínquos para frente, em direção ao futuro. Porém, assim como a ametista presa dentro do geodo, é possível quebrá-lo e revelar, em nova forma espatifado porém talvez mais repleto de nuances e variações.

Muito me apetece a probabilidade e a responsabilidade pessoais de dar sequência a estes projetos de pensamentos, mas obviamente não é algo que me parece fácil. Principalmente se levarmos em consideração a necessidade de fazê-lo dia após dia, de forma totalmente consciente.

Porém, é isso que nos faz tão diferentes das demais espécies. A consciência com a qual realizamos nossas ações. Não devo deixar que esta também se esvaia, mas sim utilizá-la como o antigo martelo que eu jurei que utilizaria para arrebatar o metal da minha vida, porém agora para fender a rocha em que o cristal do verdadeiro valor da minha, enquanto minha, existência se encontra aprisionado

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quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Meditações

De que me serve a dor e o sofrimento causados por algo que foi produzido por mim e que estes não podem mudar? Seria vantajoso senti-los para impedir que este algo aconteça novamente no futuro?

Mas não é esta a origem das consequências dos traumas, que nos comandam de forma irracional por reverberarem acontecimentos do passado assim como uma corda não tocada vibra ao sentir a frequência com a qual que foi retesada na vibração de outra corda?

Não sabia eu, naqueles momentos passados, de forma racional, que aquelas atitudes me trariam sofrimento naquele presente e no atual futuro? E mesmo assim agi da forma de agi.

Não seria mais prudente agir de acordo com a minha racionalidade da próxima (ou das próximas) vez ao invés de buscar um mecanismo - ou falta de mecanismo - que me evite sofrer?

Seria esta uma nova tentativa de atribuir responsabilidade a um meio externo, ou falta de responsabilidade a um meio interno?

Por fim, deixar de sofrer pelo que já vem sendo sofrido há muito e pensar em agir de forma a enfrentar as consequências me parece mais produtivo.

As dores do corpo são inevitáveis, porém as da mente merecem certo controle - ou pelo menos tentativa de.

sábado, 5 de junho de 2021

Sono desnecessário

Sono desnecessário. Morrer na praia.

A vida é um misto de sacrifícios e recompensas. Muitos desses sacrifícios vem de forma espontânea, ou até mesmo deliberada, como um masoquismo caminhante que leva a um objetivo pleno na construção do todo, se tornando assim o sacrifício também um objetivo.

Porém, como água na brasa que ainda espera se tornar uma nova chama, temos o sacrifício que nada encontra. O mártir esquecido assim que o som da tampa do caixão deixa de ecoar. Chegar na praia pra ser espetado pela lança dos tempos. O erro das fúrias e da matemática.

A imprevisibilidade do que é humano.

Se sacrificar para morrer na praia, sentir-se alvejado sem propósito, sacrificar algo sem necessidade, se preocupar onde não existiu perigo, isso tudo é estranho para a mente humana.

E como tal, quebra a rotina e confunde o próximo passo.

É isso.