sábado, 31 de outubro de 2026

Livrarias Invadidas

 Anos se passaram sem que alguém manifestasse sua presença naquele lugar. A pesada chave de bronze ainda funcionava com facilidade, uma prova da qualidade de construção não só das portas duplas de madeira escura, mas também do prédio como um todo. Adentrando o casarão, um leve iluminar da Lua entrava pelas janelas superiores, basicamente intactas com exceção de alguns vitrais incompletos pelo vandalismo da passagem do tempo. Por mais que viesse do segundo andar, era um horário de ápice lunar, favorecendo o esparramar do deleite prateado sobre a fina camada de poeira, menor do que eu esperava, que pairava sobre todas as superfícies expostas daquele lugar. Estantes monstruosas de madeira entalhada com riscos verticais em sua altura e coroas quadradas, cercando as duas paredes laterais mas também dispostas sobre o centro em formato de colunas, dividiam o térreo, dominado por este saguão que se estendia até a parede traseira do prédio, e cujo caminho se alinhava de bancos extensos e mesas correspondentes, se assemelhando a um refeitório porém destacando-se pela qualidade dos móveis, novamente de madeira entalhada num estilo agora evidentemente manuelino, com motivos de cordas em seus pés e detalhes bastante aparentes.

Subindo as escadas laterais, em estado de conservação impressionante e cujos corrimões apresentavam os mesmos motivos das mesas e a firmeza de uma estátua de mármore, cheguei no andar superior, na verdade uma espécie de mezanino longo e fundo, com formato de letra "U", que embarcava o mesmo estilo de estantes em suas laterais, como se abraçasse o espaço vazio que pairava entre o térreo e o telhado, este a uma dezena ou mais de metros de altura do chão, em estilo colonial com suas vigas e telhas à mostra e intercaladas por poucos espaços onde a passagem das voltas do Sol talvez tivesse, há tempos pois não havia resquícios em seu interior, derrubado alguma de suas telhas.

Na parede final desta livraria anciã, na prática uma casa com seus víveres espalhados em pequenas portas laterais, quase que escondidas para ressaltar a importância de seu centro de conhecimento, havianuma estante ainda maior, indondenum lado ao outro, munida de um domo curvado no seu topo. E, ao seu lado, uma larga porta já de metal trancava a saída para o mundo externo, provavelmente levando a uma rampa ou escada para o corredor lateral e o jardim traseiro da antiga casa, ambos injustamente esquecidos.

Foi quando ouvi um som. Uma pancada audível dentro daquela câmara sonora, mas provavelmente surda lá fora. Seguiu-se de outra. E outra. Foi quando percebi que essa última porta, larga, se movia. Primeiro como consequência das batidas, depois pelo seu destravamento. A porta correu uma dúzia de centímetros, revelando o invasor noturno. Ou, devo dizer, os invasores noturnos. Uma mão ou mais de pessoas entraram por ali rindo de satisfação, penetras gatunos em busca de algo que não lhes pertencia mas que muito valeria. Seriam oportunistas ou estariam ali com um proposito pré-fixado? O que importava agora era enfrentá-los.

No momento que atravessaram os limites do mundo exterior, com os dentes à mostra em sorrisos funestos, se espalharam em direção às paredes, tocando e puxando das prateleiras tudo que parecesse antigo, volumoso ou valioso. Naquela mesma hora gritei e avancei em direção àquele que se fazia mais próximo, questionando seus motivos.

Pelo que entendi,pareciam ser oportunistas em busca de qualquer coisa que compensasse seu esforço de estar ali. Quando me dei conta, estava cercado. Desferi o primeiro soco, porém recebi cinco de volta. Temendo ser massacrado, saltei como uma onça no pescoço de uma presa, esteangulando e sequestrando o primeiro que consegui, fazendo-o de vítima e proteção. Os demais se afastaram, porém continuaram rindo.

"Enquanto você o segura, nós pegamos o resto do que viemos buscar.", disse aquele que parecia ser o líder enquanto ensacava um enorme livro. Por mais que eu protestasse, de nada adiantava e, juntos, levaram uma quantia significativo de obras daquele acervo fenomenal. Em poucos minutos, após encontrarem a porta da frente trancada por mim, sumiram na noite pela mesma porta pela qual haviam invadido e deturpado aquele altar de conhecimento ancião.

Após alguns minutos soltei minha carta na manga, percebendo que o ladrão estava tão revoltado quanto eu mesmo, por ter sido deixado para trás, para uma provável morte, pelos seus comparsas.

Indo para a rua e sentando na calçada, liguei para a polícia. 

"Ninguém vai atender", ele me disse enquanto olhávamos para cima, olhando para o rumo da escola em meio à névoa, e para baixo, na direção da praça e do cemitério daquela região. Dito e feito. Ninguém atendeu. Eu não fazia ideia do que estava acontecendo, mas tudo parecia um sonho.

Nenhum comentário:

Postar um comentário